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Vicente Sousa: “Profissionalmente, a UTAD é a minha vida”

Começou por querer formar-se em Lisboa, mas a força das circunstâncias encarregou-se de o fazer regressar a Vila Real. Passados 40 anos, Vicente Sousa é professor na academia onde estudou.
 
Terminado o Secundário em 1974, Vicente Sousa viu na capital o local ideal para prosseguir os seus estudos. Inscreveu-se no Instituto Superior Técnico de Lisboa nesse mesmo ano, mas nunca lhe conheceu as entranhas. “A revolução foi em abril e a admissão dos alunos seria feita em outubro, mas nunca chegou a acontecer. Acabou por não haver aulas.”
Foi precisamente nessa altura que o Politécnico abriu portas em Vila Real. “Eu e alguns colegas dessa época quisemos jogar pelo seguro. Aqui, sabíamos que ia abrir, enquanto que em Lisboa, não fazíamos ideia do que ia acontecer. Foi um pouco por acaso, mas um acaso muito determinado pelas circunstâncias da época.” Da oferta que havia inicialmente – Produção Animal, Agrícola e Florestal –, a escolha acabou por pender para a agricultura.
Nos primórdios do Ensino Superior em Trás-os-Montes, havia lacunas facilmente identificáveis: “eram infraestruturas muito improvisadas. Tínhamos aulas nos bombeiros e, depois, no DRM. A Quinta de Prados foi comprada muito mais tarde”.
Vicente Sousa recorda o entusiamo do corpo docente como uma das grandes forças que fez prosperar a academia vila-realense. “Eram professores que tinham terminado os seus cursos. Um quadro de gente muito jovem que veio para uma instituição que estava a nascer com espírito de grande desafio.” A esse grupo juntou-se um outro proveniente das ex-colónias e com mais experiência. “África tinha fortíssimos quadros nos domínios da Zootecnia, Agrícola e Florestal e muitas dessas pessoas, que tinham lugares de destaque em estruturas de Investigação e Ensino em Angola e Moçambique, acabaram por regressar a Portugal, deixando transparecer o prazer que existe ao criar uma coisa nova.”
Graças a esses obreiros, a instituição foi-se afirmando como um motor de desenvolvimento regional. “Hoje, a região do Douro não tem rigorosamente nada a ver com o que existia há 40 anos. Por detrás desse desenvolvimento, está muita gente que trabalhou ou estudou aqui. Podemos dizer que a Universidade estava no sítio certo, à hora certa.”
Vicente Sousa fez parte de uma das primeiras turmas. Eram poucos alunos e isso acabou por fortalecer os laços e criar amizades duradouras. “Éramos uma família autêntica. Frequentávamos os mesmos cafés, vivíamos nas mesmas casas e reuníamo-nos na Gomes, no Guanabara, no Pic-Nic e no incontornável Cabanelas.” Este último tornou-se num local obrigatório para o convívio e, hoje, é sinónimo de nostalgia. “O Cabanelas era fabuloso, ao nível dos melhores snack-bares que havia no País. Era uma cervejaria com estofos de couro branco e aberta até às 2h. Por lá, passava toda a vida de Vila Real e era onde íamos às francesinhas, aos mariscos e ao caldo verde.”
Apesar de encontrarem diversão e convívio nesses locais, o antigo aluno relembra que havia outras cidades que lhes causavam alguma inveja. “Vila Real foi a última cidade de Trás-os-Montes e Alto Douro a ter discoteca. Em Bragança, por exemplo, já havia cinco nessa altura. Por vezes, pegávamos no carro e íamos até Murça, Régua, Amarante ou Chaves.”
Atualmente, Vicente Sousa é docente na UTAD e preside à Escola de Ciências Agrárias e Veterinárias. “Profissionalmente, a UTAD é a minha vida. Nunca trabalhei noutro sítio. Inicialmente não pensava ficar, mas simplesmente aconteceu.”
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse
(texto e fotografia)