“A vida académica não é só nas salas, nos edifícios; é também aquilo que temos à volta e nós na UTAD somos privilegiados nisso.”

Nasceu no Minho, mas mudou-se para Trás-os-Montes. Viveu um quarto de século em cada lado, por isso diz que é uma fusão das duas culturas. E isso reflete-se no seu trabalho não só como docente no Departamento de Artes, Letras e Comunicação, mas também como escritor. É aqui que dá largas ao lado artístico, que diz ter herdado dos seus avós. Através da escrita reinventa-se e projeta o Eu, com pseudónimo, nos inúmeros livros de ficção que tem publicado e com que recebeu vários prémios.


Gostávamos de o conhecer melhor. Fale-nos um pouco de si.

Nasci em Braga há 50 anos. Passei 25 anos em Braga e 25 anos em Trás-os-Montes. Sou metade minhoto e metade transmontano, uma espécie de mestiço ou hibrido… no bom sentido! (risos). Sou de uma família de pintores. O meu avô era pintor de frescos em casas e edifícios públicos. Algumas das pinturas do Teatro Circo em Braga têm a sua mão. Isto deu-me o meu lado artístico, não como pintor, mas como escritor. O meu pai queria muito que eu fosse para Engenharia Civil, mas eu defraudei-o. O que me atraía eram as Letras, a literatura. Por isso fui estudar para a Faculdade de Filosofia de Braga, onde me licenciei em Humanidades. Depois fiz o mestrado na Universidade do Minho, também em Letras, e o doutoramento na UTAD, na área da Linguística. Vim para Trás-os-Montes, porque concorri como professor para o distrito de Vila Real e fui colocado numa escola em Chaves. Isso foi positivo, pois deu-me a possibilidade de uns anos mais tarde ser contratado pela UTAD.

E como toma contacto com a UTAD? Como começou esse período da sua vida?

Eu era orientador de estágios de alunos da UTAD na minha escola e vinha às reuniões aqui no campus. Um dia fui contactado pelo Departamento de Letras para substituir um professor do Polo de Chaves que se tinha reformado e eu aceitei. Fiz doutoramento, entrei na carreira e fui contratado como professor auxiliar. Neste momento, sou professor auxiliar com agregação do departamento de Letras Artes e Comunicação e tenho lecionado várias unidades curriculares em licenciaturas e mestrados. Nomeadamente Semiótica em Ciências da Comunicação.

Semiótica é o terror dos alunos?

É, porque os alunos, em geral, não estão preparados para o estudo da Semiótica. Há bons alunos… têm-me aparecido bons alunos, mas a maior parte não está preparada do ponto de vista cultural e cientifico. Faltam-lhes bases filosóficas… Mas em geral vão fazendo a cadeira.

E do que gosta mais na sua atividade diária?

Gosto muito de lecionar, de estar com os alunos. Normalmente nas minhas aulas há um ambiente descontraído. Não sou muito teórico. Ponho os alunos a fazer exercícios e a discutir os temas propostos. Leio muito, faço investigação científica na minha área e vou escrevendo alguns artigos que depois apresento em congressos e publico em livros e revistas.

Tendo em conta que está na UTAD há cerca de 17 anos e que já conhece bem a instituição, o que mais gosta na UTAD?

Gosto muito de andar a pé no campus. É uma das universidades mais bonitas de Portugal. Eu conheço-as todas e realmente a UTAD é a mais bonita. Pelo ambiente, pela envolvência dos edifícios, pelo jardim botânico que é muito interessante… (pensativo) Às vezes paro para ver os nomes em latim e até fotografo. Tenho uma coleção de fotografias das plantas aqui da UTAD. Gosto das árvores e das várias espécies que foram plantadas quando a UTAD foi criada. A parte mais amena da universidade é a parte exterior. Depois de uma aula, quando tenho um intervalo, dou um passeio à volta do Complexo Pedagógico, por exemplo, e é relaxante.

E nesses passeios mais introspetivos, alguma vez pensou numa ideia para uma UTAD melhor?

Tendo um espaço tão bonito e tão agradável, por que razão não vemos os alunos debaixo de uma árvore a estudar, a ler, a ouvir música? Aquilo que se vê, por exemplo, nas universidades americanas. Os alunos nessas universidades utilizam o espaço envolvente para conversar, ler, estudar, conviver e até namorar (risos), porque não? Ah! E têm bancos de jardim! Fica aqui a proposta para se criarem condições para os alunos, e os professores e os funcionários, já agora, poderem disfrutar melhor do espaço envolvente da UTAD, quer nos relvados, quer nos jardins. Uma coisa que sinto falta aqui na UTAD é poder sentar-me debaixo de uma árvore. Mas faltam os bancos! A vida académica não é só nas salas, nos edifícios; é também aquilo que temos à volta e nós na UTAD somos privilegiados nisso.

Sabemos que, além da atividade como docente, tem outra atividade e estamos mesmo sem saber como tratá-lo a partir de agora… Se pelo seu nome ou pelo pseudónimo. Quer falar-nos um pouco sobre essa atividade?

Certamente. O José Leon Machado é o José Barbosa Machado. E só existe o Leon porque quando escrevi o meu primeiro livro o editor me disse que já havia um escritor com o mesmo nome. Decidi trocar o Barbosa por Leon, uma alcunha de família. O meu avô era sportinguista e chamavam-lhe Leão, com sotaque de Braga. Decidi usar essa alcunha, mas escrevê-la sem o til… e ainda bem que fiz isso, porque alguns dos meus livros estão traduzidos e é mais fácil no inglês e alemão utilizar Leon.

É portanto escritor?

Sim! Não… eu não sou escritor. Sou um professor que escreve nas horas vagas. Comecei a escrever muito cedo; aos 12 anos, por sugestão de um professor de Português. Um dia, o professor perguntou quem andava a escrever o diário, e eu levantei o dedo. Eu e algumas meninas. Bem… os outros gozaram, porque os meninos normalmente não escrevem diários. E gostei tanto de escrever que nunca mais parei. Aos 14 anos escrevi a minha primeira novela, Fantasmas à Lareira, que foi publicada este ano no livro Terras de Sonhos, onde recolhi os meus textos juvenis. Tornei-me romancista aos 14 anos. Mas o que me motivou a continuar a escrever foi o trabalho num jornal de Braga. Eu tive um professor no secundário que era diretor do Diário do Minho e perguntava aos alunos quem queria colaborar. E eu comecei a entregar-lhe alguns textos. Ele publicava alguns, outros não. Aos 20 anos, encontrei-o na rua e perguntou-me se eu queria trabalhar no jornal, e eu disse que sim. Como eu tinha aulas na universidade e não podia faltar, ele disse: “Não há problema, porque só vais trabalhar das sete da tarde às quatro da manhã. Não precisas de faltar às aulas”. Foi assim que fui para o Diário do Minho. Trabalhei lá durante dois anos. Esse trabalho fez com que eu desenvolvesse a minha escrita e também me motivasse a escrever para publicar. Mas foi nos Açores, durante o serviço militar, que tive mais tempo para escrever. Aí redigi três romances que depois foram publicados. Todos os anos procuro publicar um livro diferente.

Quantos livros tem publicados? Tem ideia?

Como José Leon Machado, mais de 20. Sobretudo romances, mas também poesia, teatro, crónicas, contos…

Alguns destes livros foram premiados?

Sim, tiveram vários prémios, de que destaco dois. Um é o prémio DST [Grande Prémio de Literatura dst], um dos mais importantes a nível Nacional que ganhei em 2002. Na galeria estou ao lado de Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Manuel Alegre…, embora eu seja o menos conhecido. Mas estou lá! (risos). O outro é o prémio Edmundo Bettencourt – prémio Cidade do Funchal – creio que em 2001.

Do que tratam as suas obras?

As minhas obras têm duas ou três facetas. Uma delas é a ruralidade, a relação das pessoas umas com as outras na aldeia, o mundo rural, sobretudo Trás-os-Montes e Minho. Outra é o romance histórico. Uma das obras mais importantes, pelo menos para mim, é o Guerreiro Decapitado, que se passa há 2000 anos atrás, no tempo dos romanos. Tenho um outro que se passa no século XV, no tempo das Descobertas, Vórtice. Historicamente mais recente, tenho um sobre a Primeira Grande Guerra, Memória das Estrelas sem Brilho, que está traduzido para inglês com o título Darkening Stars, e é, não digo um bestseller, mas um dos mais vendidos, devido ao centenário da Primeira Grande Guerra que de momento se comemora. Tenho outro que é sobre a guerra colonial, Heróis do Capim, publicado em 2016. Um terceiro tema das minhas obras é a crítica social, onde sobressai o sarcasmo, a ironia e a denúncia a esta sociedade de consumo, fútil e artificial. Nesse aspeto, estou próximo de Eça de Queirós.

Existe algum denominador comum nas suas obras que o diferencia como escritor?

Sim! A simplicidade do estilo. A minha escrita procura ser simples, mas não é simplória. É direta e crua. É o que define o meu estilo em relação ao de outros escritores, que em Portugal são bastante abarrocados na maneira de escrever. Depois são as histórias. Têm um enredo muito complexo. Não conto uma história com principio, meio e fim. A história flui como o mar, dentro de um estilo direto e simples.

É um professor que escreve nas horas vagas. O que ocupa mais o seu dia-a-dia? Quem tem maior influência: o professor ou o escritor?

É o professor. Eu passo mais tempo a ser professor do que a ser escritor. Terminei em setembro o meu último romance, que será publicado em 2017. No trabalho de escrita, uma pessoa escreve durante determinado tempo e depois interrompe para descansar. O Virgílio Ferreira dizia que o poço secava depois de terminar um livro. O meu trabalho principal é dar aulas e preparar artigos científicos. Escrevo sobretudo durante as férias. Depois passo o tempo livre, quando o tenho, a ler os clássicos. Leio cada vez menos os autores atuais. Já não tenho paciência.

A escrita é então um hobby e não uma necessidade?

(Pensativo) É muito difícil escrever, exige muita concentração, muito tempo disponível. A escrita é uma amante muito exigente, gosta de exclusividade, o que é muito difícil às vezes… Só nas férias é que temos essa possibilidade: estar com essa amante que é a escrita e dedicarmo-nos exclusivamente a ela.

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Entrevista: Rosa Rebelo | GCI – Gabinete de Comunicação e Imagem
Fotos e Vídeo (realização): José Paulo Santos | GCI – Gabinete de Comunicação e Imagem