«Se cada um de nós, funcionários docentes ou não docentes, zelar pelo interesse desta casa e desempenhar as suas tarefas com brio profissional, já faz uma UTAD boa»

​António Euclides Moura Rodrigues é funcionário da Unidade de Apoio Técnico, Manutenção e Segurança da UTAD. Está na instituição há 25 anos, após uma infância rica de vivências no meio rural. Para estudar na cidade, teve de palmilhar a pé, à chuva e ao frio do Alvão, os mesmos trilhos que Camilo conheceu e percorreu quando por lá habitou. Precocemente, interrompeu os estudos para trabalhar. Foi operário, emigrante, e hoje, para lá dos muros da instituição, emprega o tempo livre ensinando a tocar concertina, integra um grupo etnográfico acompanhando-o nos seus espetáculos regulares e possui o seu próprio grupo musical.


Fale-nos um pouco da sua história de vida. Como foi a sua infância? Como veio ter à UTAD?

Nasci em 1966 na aldeia de Samardã, onde vivi durante doze anos. Fiz lá a escola primária e vim depois para o ciclo na Escola Diogo Cão, em Vila Real. Nessa aldeia só chegou a luz elétrica quando eu já tinha os meus dez anos. Todas as manhãs, para vir estudar para Vila Real, como não havia transportes como hoje, tínhamos de fazer o trajeto a pé durante três quilómetros até à estrada nacional onde apanhávamos o autocarro. Isto de manhã e à noite. E nesse tempo era um pouco duro, principalmente no inverno. Quem se lembra desse tempo, sabe bem que os invernos eram rigorosos com os longos nevões. Tínhamos que fazer isso a pé todos os dias. O meu pai, quando eu tinha três meses, foi fazer a tropa em Moçambique e em Angola, depois ingressou na PSP em Lisboa, e eu vivi com a minha mãe e os meus avós na aldeia. Também trabalhava no campo. Ajudava a plantar as batatas, as couves, semear o centeio… Depois, viemos viver para Vila Seca, mais perto de Vila Real, e continuei os estudos no colégio da Boavista, até ao 9º ano. Mas interrompi os estudos para começar a trabalhar. Estive no posto médico lá da minha freguesia, em Vilarinho da Samardã, durante dois anos. Depois entrei para a fábrica dos diamantes que havia cá na altura e fui estudar de noite para o Liceu. Estudei até ao 11º ano mas não o cheguei a concluir, pois nesse meio tempo emigrei para a Suíça, onde estive cinco anos. Trabalhava na construção civil. Ao fim desses cinco anos regressei ao nosso país e entrei aqui na UTAD, como segurança na portaria, já lá vão 25 anos. Estive nessa função três anos até que abriu uma vaga nos Serviços Técnicos para onde fui e fiquei até aos dias de hoje.

Fale-nos da sua atividade na UTAD

Sou assistente técnico. Atualmente, ando com uma carrinha e percorro a universidade toda ao longo do campus, a fazer as mudanças necessárias que nos são pedidas. Coloco também os expositores nos locais em que nos é pedido para os eventos que se realizam na universidade, depois recolho-os. Faço ainda a recolha de equipamentos para reparar ou para irem para ser abatidos e reponho material novo ou seminovo.

Do que mais gosta na sua atividade?

Do que mais gosto, é poder deixar o meu serviço no dia a dia pronto. Não gosto de deixar para amanhã o que posso ou devo fazer hoje. O meu chefe destina-me o serviço através de uma requisição e, a partir daí, não tem que se preocupar mais com o meu trabalho. Eu faço-o da melhor maneira. E em tempo útil. É isso o que me dá mais satisfação.

Gostaríamos de conhecer as atividades que desenvolve na comunidade, fora do âmbito da UTAD

Tive sempre o gosto pela concertina pois o meu avô já a tocava. Só que, enquanto criança, nunca tinha tido a oportunidade de aprender nem sequer de ter esse instrumento. Depois, o meu pai, sabendo deste meu gosto, um dia qualquer, de surpresa, levou-me a Braga e comprou-me uma concertina, que já custou na altura 240 contos. Tinha então uma concertina, só que não encontrei quem me ensinasse a usá-la. Mas não desisti. Comprei umas cassetes gravadas, ouvia-as e assim fui aprendendo aos poucos. Aprendi por mim. E tudo por ouvido. Depois, passei a ser procurado para ensinar outros e, hoje em minha casa, ensino-os desde a idade dos 8 até aos 55 anos. Faço também parte do Grupo de Danças e Cantares de Valnogueiras, com a minha concertina, e acompanho-o sempre que é chamado para espetáculos. Mas tenho também o meu próprio grupo de concertinas. Antes chamava-se “Euclides e Ivo”, pois acompanhava-me um sobrinho meu, hoje é só “Euclides” e acompanham-me alguns dos que eu próprio tenho vindo a ensinar.

Fale-nos de uma ideia para uma UTAD melhor

O que eu penso para uma UTAD melhor é que, se cada um de nós, funcionários docentes ou não docentes, zelar pelo interesse desta casa e desempenhar as suas tarefas com brio profissional, já faz uma UTAD boa. E sobre isso quero deixar aqui, como exemplo dessa ideia, o reconhecimento ao mérito do Sr. Pró-Reitor do Património da UTAD e da equipa que lidera.

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Entrevista: Produção de conteúdos GCI – Gabinete de Comunicação e Imagem
Fotos e vídeo: José Paulo Santos | GCI – Gabinete de Comunicação e Imagem