“O que mais gosto é parte da investigação, da orientação de teses, do relacionamento com os alunos nas teses. Gosto de estar em contacto com os atletas, gosto de estar no terreno, tenho saudades desses momentos…”

Foi atleta olímpica e marcou presença em duas olimpíadas. Agora é docente na UTAD. Especializou-se no perfil psicológico destes atletas e gosta da investigação e da relação com os alunos. Mas a emoção da competição está sempre presente. Na pele de treinadora revive o nervosismo e o entusiasmo através dos seus atletas.


Gostávamos de a conhecer melhor. Fale-nos um pouco de si.

Tenho 48 anos, sou do Porto, casada, com um filho de oito anos e sou feliz aqui na UTAD! [risos]. Fiz a minha vida escolar toda no Porto até ao mestrado. Pratiquei muito desporto, comecei pela natação, passei para o voleibol… depois tive um treinador, que foi meu professor na universidade – André Costa – que dizia que eu tinha jeito para o atletismo, e que eu um dia iria aos jogos olímpicos e eu acreditei e comecei a treinar. Passados cinco anos, realmente fomos aos jogos olímpicos de Barcelona, como finalistas de estafeta 4×400 portuguesa que ainda hoje é recorde nacional. Passados quatro anos participei nos jogos olímpicos de Atlanta, fui aos 800m e fui 26ª classificada, entre os melhores participantes a nível mundial. Nessa altura já era treinada pelo Vítor Reis, também docente aqui na UTAD. Houve a oportunidade de entrar na UTAD como colaboradora e depois assistente. Como era quase impossível conciliar a vida de atleta com a docência, disse adeus a uma carreira de 12 anos em que tive resultados muito positivos.

O que sente um atleta quando vai aos jogos olímpicos? Deve ser um momento muito marcante, sobretudo a cerimónia de abertura…

Em Barcelona fui mais tarde porque corríamos nos últimos dias. Ficámos para a cerimónia de encerramento, e foi num momento muito marcante. Em Atlanta já fui à cerimónia de abertura e realmente é um dos momentos que marca o atleta, a entrada no estádio olímpico, o desfile… é um momento mágico, não dá para descrever, só quem lá está a vivenciar aquele momento [pensativa]. Nós estamos quatro anos a sonhar com aquele momento, parece que estamos no olimpo… não sei explicar… Estamos num evento desportivo, em que estão os melhores atletas do mundo de todas as modalidades e em nós pensamos…eu estou aqui! É viver um sonho que se torna realidade [sorri].

É atualmente docente no Departamento de Desporto na UTAD. Como foi o seu percurso até aqui?

Fiz o mestrado de alto rendimento no Porto, na área da psicologia do desporto, sob a orientação de Vasconcelos Raposo, professor na UTAD. Nas teses de mestrado e doutoramento estudei a carreira e o perfil psicológico do atleta olímpico e na UTAD dou aulas nas duas áreas da minha especialidade: Atletismo e psicologia do desporto. Também tirei curso de treinador e acompanhei o percurso de alguns atletas jovens até à idade sénior. Neste momento estou a fazer o treino de um atleta paralímpico, o Mário Trindade.

O que gosta mais na sua atividade profissional?

O que mais gosto é parte da investigação, da orientação de teses, do relacionamento com os alunos nas teses. Gosto de estar em contacto com os atletas, gosto de estar no terreno, tenho saudades desses momentos… [sorri pensativa]

E na UTAD? O que gosta mais?

Além do envolvimento da paisagem, temos a sorte de estar no mesmo campus, o que permite um trabalho conjunto entre vários departamentos. O relacionamento entre as pessoas é muito familiar, o que é bom, tanto docentes, colegas, até o nosso reitor [Fontainhas Fernandes], acho que tem um relacionamento muito próximo com todos nós e esse é um fator de relevo. E o próprio relacionamento com os alunos é muito próximo.

Tem alguma ideia ou sugestão para uma UTAD melhor?

Sim, e pelo facto de estarmos aqui nas instalações do departamento de desporto, a minha sugestão seria a abertura das instalações e a criação de atividades para docentes, funcionários à hora de almoço. Serem melhor aproveitadas as instalações que já temos e são muito boas – temos uma pista de atletismo, um campo de relva sintética, um ginásio – podiam estes espaços ter atividades. Sei que outras universidades têm e funciona. Acho que podia ser uma mais-valia.

Já percebemos que o seu percurso como atleta olímpica a marcou muito e que agora treina atletas, nomeadamente o Mário Trindade, um atleta com limitações motoras. Têm um sonho conjunto. Como e quando iniciaram este trabalho?

Conheci o Mário na UTAD, o qual aderiu ao meu grupo de treino.
O Mário é um atleta paraplégico com lesão D10, que trabalha comigo há 13 anos, com o sonho de participar nos jogos paralímpicos. Já têm mínimos para participar e estamos à espera de saber se vamos os dois aos paralímpicos no Brasil em 2016. Sou a treinadora oficial do Mário Trindade… com muito gosto! [sorri]. Há dois anos o Mário foi selecionado para o campeonato da Europa. Foi um momento muito marcante para mim… voltar a estar com o equipamento de Portugal… e para o Mário. Nessa competição apanhámos um balde de água fria, porque o Mário foi o 1º classificado na prova de 400m, mas passou por cima de duas linhas e foi desclassificado. Nesse mesmo campeonato ganhou uma medalha de bronze nos 100m, o que foi uma prenda para nós, após o desaire inicial… O ano passado foi ao campeonato do mundo. Aí foi finalista nos 100m, mas nos 400m não passou à final. Nessa fase estive doente e não o pude acompanhar. Já em 2016 foi outra vez ao campeonato da europa, em Itália e correu bem: ganhou duas medalhas – prata nos 100m e bronze nos 400m. Foi muito bom… eu nunca subi ao pódio … por isso ele sobe por mim e por ele [sorri].

A propósito dessas medalhas, ambos receberam uma carta especial, querem falar sobre ela?

Surpreendentemente o nosso presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, enviou-nos uma carta, que nunca tínhamos recebido, a dar os parabéns aos atleta e treinador pelas medalhas alcançadas. Claro que foi um orgulho muito grande para nós!

Nas provas, quem é que fica mais nervoso? Atleta ou treinador?

Quando não estou presente nas provas, fico bastante nervosa, à espera de um telefonema ou mensagem. Se ele não telefona já sei que as coisas não correram bem. Quando ele fez os records pessoais eu estava ali na pista [UTAD] a fazer a avaliação dos alunos de atletismo e recebi um telefonema… nem acreditava… foi realmente muito bom. Para quem foi atleta viver novamente estas emoções é sentir-se vivo e após a doença que passei é sentir-me viva. Ele tem o objetivo de ir aos jogos olímpicos e para mim, como treinadora, também. É um sonho conjunto!

Ser atleta não é fácil, ser atleta paralímpico, deve ser mais difícil. Quais as dificuldades que sentem no dia-a-dia?

O Mário continua a ter algumas dificuldades de ordem financeira… tem alguns patrocinadores, mas ainda precisa de mais. Os subsídios que recebe ainda não são suficientes para as provas que realiza e muitas são no estrangeiro. Precisa de tudo para todo o tipo de despesas. Como não trabalha, vive de subsídios e da bolsa do projeto paralímpico…

Gostava de deixar alguma mensagem sobre o tipo de apoio que se pode dar a estes atletas?

Gostava que as pessoas estivessem atentas ao que as pessoas com deficiência fazem e aos resultados que alcançam. Porque além do que fazem, têm problemas de saúde e dificuldades no dia-a-dia, por isso precisam de apoio financeiro e de emprego!

Nota: O atleta paralímpico assistiu à realização desta entrevista. Apesar de ter mínimos A, está neste momento à espera de saber se poderá integrar a equipa paralímpica nos jogos do Brasil 2016, devido imposição de quotas.
Apoie e acompanhe o seu percurso desportivo aqui.
Atualização: o atleta participou nos jogos paralímpicos – Brasil 2016
Veja também esta entrevista em vídeo: [VER]
Entrevista: Rosa Rebelo | GCI – Gabinete de Comunicação e Imagem
Fotos e Vídeo (realização): José Paulo Santos | GCI – Gabinete de Comunicação e Imagem