“Para melhorar nós temos de sentir a UTAD como algo que é de todos”

​Nasceu em Aveiro, mas Paris mudou-a para sempre. Especializou-se em literatura, apaixonou-se pelo cinema e carrega o bichinho oculto da rádio. É enérgica, apaixonada e irrequieta. Define-se assim porque o trabalho vem sempre por gosto, quer seja na UTAD onde é docente, no contato com os alunos ou como jurada em festivais de cinema. E isso revela-se na paixão que tem por Fellini, cuja caricatura tem gravada nos cartões visita.


Gostávamos de a conhecer melhor. Fale-nos um pouco de si.

Nasci em Aveiro. Tenho uma grande paixão pela minha terra, e isso também é notório quando falo com os colegas, e sou uma mulher normal com muitas paixões e não consigo estar quieta (risos). Acho que é assim que eu me defino. Gosto de tudo o que faço e é por isso que normalmente as pessoas perguntam “Porque é que tens tanta energia?”. Porque eu quando gosto do que estou a fazer não é cansativo, não é trabalho. É dessa maneira que eu sou.

Nasceu em Aveiro. Qual foi o seu percurso de vida até chegar a Vila Real?

Eu cheguei a Vila Real por amor, como costumo dizer. Estudei na Universidade de Aveiro. Depois estive um ano como leitora de Português em Paris e isso foi decisivo! A Anabela que foi não é igual à Anabela que voltou. O meu marido, também por questões profissionais, resolveu concorrer a uma vaga que abriu na UTAD. Eu não sabia sequer onde era Vila Real, nunca tinha vindo a Vila Real. Quando ele veio para cá, assim que eu acabei a minha atividade em Paris concorri para aqui e, portanto, vim atrás dele. Depois, aqui, dei aulas na Escola Secundária Morgado de Mateus, mas de qualquer modo eu já tinha uma atividade de investigação que tinha iniciado em Paris e comecei a sentir-me presa no Ensino Secundário. Havia muitas limitações na altura, que agora não há tanto, mas em certos meios, os professores do ensino secundário não podiam entrar (certos congressos e certas coisas). Daí a minha ideia de concorrer à UTAD. Concorri e estou cá desde 1993.

Está na UTAD há 23 anos. Fale-nos um pouco sobre o seu percurso na instituição.

A minha área de investigação e paixão sempre foi a literatura, numa primeira fase. A vaga abriu e eu não sabia que era de linguística. Entrei e ainda andei dois ou três anos a dar linguística. Fui-me afirmando mais na área que queria investigar, na altura, que era a literatura. E depois, da literatura, passei para as relações entre literatura e cinema e agora estou só praticamente na área de cinema. Sempre estive no Departamento de Letras. Primeiro ligada à docência e à literatura e culturas francesas, porque a minha formação é em Francês-Português (um curso que existia na altura) e sempre neste departamento nos cursos de formação de professores e depois, quando iniciaram os cursos de Ciências da Comunicação, também, mas aí já foi o meu salto para as unidades curriculares ligadas aos estudos fílmicos que começaram a partir do início do curso de Ciências da Comunicação.

Neste momento dá aulas a vários cursos. Fale-nos um pouco da sua atividade profissional diária.

Sempre fui cinéfila e comecei a introduzir algumas unidades curriculares ligadas às relações entre cinema e literatura e depois também só ao cinema. Eu dava essas unidades ao curso de Ciências da Comunicação e ao Curso de Comunicação e Multimédia. No caso de Comunicação e Multimédia, a direção de curso começou a sentir necessidade de proporcionar aos alunos, não só a preparação técnica muito boa que têm a esse nível audiovisual, mas também uma preparação mais teórica e estética. Eles não tinham conhecimento sobre a estética ou a história do cinema. Aí convidaram-me para dar duas unidades curriculares em Comunicação e Multimédia. Tem corrido muito bem, os alunos são muito interessados e depois há uma parte prática muito grande, que eles já fazem nas unidades de produção audiovisual. Tenho muitos alunos e sinto muito mais feedback por parte dos alunos no curso de Comunicação e Multimédia do que no curso de Ciências da Comunicação. Em termos práticos estes alunos já fazem filmes que já vão a festivais, portanto há um lado prático que me agrada muito e que é muito bom tanto do lado de Ciências da Comunicação como de Comunicação e Multimédia. É muito bom sentir que os alunos, a partir do momento em que começam a ir às minhas aulas, me dizem que quando vão ao cinema já vêm o filme de outra maneira e mudam de gostos em termos cinematográficos. No fundo é tudo isso a minha paixão: ver os alunos a quererem organizar festivais e a quererem ir a festivais e isso é muito bom. É evidente que essa força dos festivais é mais no curso de Comunicação e Multimédia. No curso de Ciências da Comunicação há menos alunos com paixão pelo cinema, mas aqueles que a têm são muito efusivos no modo como demonstram isso. Portanto estou sempre na linha entre esses dois cursos.

No fundo reúne o melhor de dois mundos. Consegue motivar os alunos que vêm de uma parte mais técnica para uma parte mais teórica e vice-versa?

Consigo! Porque na última avaliação do curso a agência de acreditação entendeu que as unidades curriculares que introduzi, que eram de opção, eram absolutamente fundamentais e agora são obrigatórias. No caso deste curso, encaminho os conteúdos para as questões ligadas ao jornalismo também. Isto é, eles vão trabalhar em termos de jornalismo, por exemplo, daí eu insistir mais no cinema documental. Mas de qualquer modo, para eles, as bases de estudos fílmicos são extremamente importantes para que possam fazer a edição das peças e para terem mais cuidado e um lado mais criativo naquilo que fazem. Por outro lado, alguns dizem “eu não quero ir para a área do jornalismo, eu quero ir para a área de cinema”, e já temos tido alguns casos de alunos que depois vão fazer mestrados já na área do cinema e do audiovisual, portanto já entendem que houve alguma mudança e isso é bom. De qualquer modo o cinema é fascinante e eu acho que as pessoas mesmo de uma maneira ou de outra, mesmo não querendo seguir ficam fascinadas porque as aulas são muito práticas e passam por muita análise fílmica. Sobretudo a minha intenção é fazer com que eles vejam o cinema de outra maneira, é ensiná-los a olhar. Fazê-los perceber que, para serem criativos, têm de ter conhecimento do passado. Eles têm de saber o que os outros realizadores fizeram, senão não vão conseguir ser criativos. É um bocadinho nessa linha que eu tento trabalhar.

Desse entusiasmo de que fala dos alunos e da relação que tem eles, o que mais gosta mais na sua atividade profissional?

Gosto de dar aulas, gosto do contato com os alunos. Faço trabalhos práticos com eles, fazem guiões por exemplo, fazem curtas [metragens] ou de ficção ou documental e surgem verdadeiras surpresas. E o que me dá muita satisfação é que eu tenho muita experiência a analisar, em festivais, peças de alunos de outras escolas da europa e chego à conclusão que apesar de os meus alunos não serem de cinema até fazem peças muito bem-feitas, em relação a outros que são alunos de cinema e nem sempre estão abertos a determinadas situações

Pode-se dizer que ainda tem surpresas, ainda sente o fator Uau?

Sim! Este ano até tenho uma turma de 1º ano [licenciatura] com alunos interessadíssimos em determinados realizadores, o que não seria de esperar na idade deles.

Tendo em conta que vive a instituição a diversos níveis, o que mais gosta na UTAD?

A UTAD tem um lado familiar. Há uma coisa que nunca mudou na UTAD: os funcionários. O carinho com que as pessoas nos tratam e que nunca mudou. Há muita coisa que mudou em termos de relações humanas, mas com os funcionários as coisas nunca mudaram. Há outra coisa lindíssima que é o campus, que está a ser valorizado, sempre houve essa preocupação, isso mudou para melhor e são coisas que se mantém inalteráveis no bom sentido.

Alguma vez pensou numa ideia para uma UTAD melhor?

Eu faço parte do grupo de missão da cultura e organizamos muitas coisas na UTAD e na cidade [Vila Real] e as pessoas ainda vão muito pouco a essas atividades. Temos um problema de público. Há muitas atividades interessantes e não vemos os colegas a participar. Talvez vejam a UTAD como um sítio para trabalhar e não como um sítio onde se pode voltar para assistir a um espetáculo, uma conferência, ver um filme… não sentem a UTAD como uma casa. Para melhorar nós temos de sentir a UTAD como algo que é de todos. Para haver mais investigação, mais atividades na UTAD, nós temos de mudar de mentalidade, temos de por à frente a Ciência, e menos alguns interesses, e isso vai necessariamente melhorar. A UTAD é de todos e ela só será muito grande se nós formos grandes investigadores, formos grandes professores, e isso passa por uma questão de mentalidade. Muitas vezes essa parte é descurada e isso prejudica alunos, colegas, a UTAD. A Ciência tem de ser a nossa mãe. O Jardim Botânico [da UTAD] devia ser uma atração turística de Vila Real. Devíamos fazer visitas guiadas, acho mesmo que poderia ser uma fonte de rendimento para a UTAD. Gostava que dissessem que “Vila Real tem um Jardim Botânico fantástico” e “vamos lá ver o Jardim” e isso tem de começar por dentro em colaboração com outras entidades.

A paixão pelo cinema levou-a a outras atividades que não a docência mas ligadas a esta área. Quer falar-nos um pouco sobre estas?

A base foi a Universidade. Quando fiz o doutoramento na área da literatura e do cinema, fui contatada
para ser orientadora de alguns doutorandos que, de uma maneira ou de outra, estavam ligados a festivais [cinema] e foram estes que me introduziram nesses meios. Comecei a ir ao Festival de Avanca em 2005 e nessa linha vou sendo convidada. Nesses meios conhecemos muita gente e acabamos por ser convidados por essas pessoas. Isso leva a um maior conhecimento com produtores, com realizadores e que leva ao efeito bola de neve. Não deixa de estar ligado á Universidade através dos congressos, dos trabalhos de alunos de escolas e universidades de cinema, e sou júri de algumas mostras e em festivais internacionais e tenho contato com produção de toda a Europa. Estive em festivais de Ourense [Espanha], Montpellier [França], Avanca, Arroios… O facto de ser diretora e organizadora do RIOS [Festival Internacional de Cinema Documental e Transmedia] também leva a que seja conhecida e também a outros convites… É uma grande paixão o mundo do cinema. O facto de trabalharmos em equipa é uma alavanca para momentos de muita troca de experiências muito ricas e é um mundo onde me sinto muito bem.

O que faz um jurado de um Festival de Cinema?

Vê filmes essencialmente! (risos) E depois discute com os outros elementos. Há uma série de situações, a parte técnica, os planos escolhidos, profundidade do tema, há coisas muito boas, outras nem tanto. O mais interessante é o contato que temos com os júris, todos têm experiências diferentes e isso é muito enriquecedor, sem dúvida.

E são vários os fatores que podem determinar a escolha de um filme ou às vezes basta um click?

Às vezes basta um click! Podemos estar três, quatro dias a ver filmes e acharmos que este ou aquele detalhe, mas às vezes há um que tem um click e esse ganha. Aprendi muito com um Senhor que foi Diretor do Festival de Ourense, Henrique Nicanor, que dizia que “quando acabamos de ver um filme ele tem de deixar em nós alguma coisa”. E é verdade! Tem de deixar alguma coisa cá dentro.

Pode-se dizer que essa é a magia do cinema? O facto de tocar cá dentro, no íntimo das pessoas?

Sim! Sem dúvida! Nós temos tendência, por defeito profissional, de ver determinados parâmetros e situações, mas sem dúvida tem de mexer connosco. E mexendo connosco é de certeza um bom filme, pela maneira original, pelas escolhas do realizador…

E isso passa-se tanto a nível do cinema documental como de ficção?

É exatamente a mesma coisa! Porque há documentários que não nos dizem nada, não mexem connosco até pelo formato escolhido. E há coisas tão simples do dia-a-dia… o olhar de uma pessoa, o objeto que foi filmado, a montagem que é essencial… basta isso para nos tocar, tanto no cinema documental como no de ficção.

Consegue indicar um filme que a tenha tocado da maneira que acabou de descrever?

Apenas um não! Não consigo! Há filmes que me marcaram muito quer a nível documental quer de ficção por diversas razões. Uns são realmente fantásticos porque são feitos de uma maneira bastante original. Há uma curta-metragem que tem a ver com crianças no tempo da ocupação nazi, essa tocou-me, a essa demos um prémio no Festival de Ourense. É uma coisa muito simples, funciona quase só com som, a imagem é muito forte… as melhores curtas-metragens são aquelas que deixam muito por dizer…

Há algum filme de que tenha saudades, que necessite ver com frequência?

Há um filme que é especial para mim – pode-se dizer que é o filme da minha vida –“Les Uns et les Autres” de Claude Lelouch. Marcou-me pela história e porque tem uma banda sonora muito bonita, tem a ver com a história de França, com a ocupação nazi, com as consequências na guerra e a sua ligação à arte… é um filme que gosto de rever! Marcou também o meu amor pelo cinema e que revejo, não como instrumento de trabalho, mas como o voltar às minhas ideias na altura. Depois há filmes e realizadores que gosto muito… Alain Resnais, Kusturica…que me encantam. Há uma atriz que gosto muito: Betty Davis… e há um realizador pelo qual tenho uma paixão muito grande e que trabalho muito sobre ele, o Fellini… e o Fellini é…(ar sonhador) até os meus cartões de visita têm a caricatura do Fellini, por isso… (risos). Também o Jacques Tati que é um realizador divertidíssimo.

Vai fazer a IV edição do Rios, do qual é diretora, e tem também um programa de rádio, que falar um pouco sobre esses projetos?

O Rios surgiu numa conversa. Um dos convidados sugeriu a ideia e decidimos fazer um festival temático com o tema Rios – porque podemos falar sobre a importância dos rios, mas também de forma metafórica, o que deu origem aos nomes das diversas competições. Já teve três edições com muitas dificuldades, porque é difícil fazer um festival com pouco dinheiro… Tem sido muito bom para os alunos, as pessoas que vem cá têm gostado muito e colocou Vila Real no circuito. A Rádio… eu fiz rádio há muitos anos. Com a minha ex-orientadora de estágio resolvemos fazer um programa – ainda nas rádios pirata – e fizemos um programa de música francesa… esse bichinho ficou. Antes do “Saco de Boxe” [na Rádio Universidade] tive outro programa como o José Costeira – “Entre Vozes e Imagens” – onde os convidados falavam sobre o seu processo criativo. Foi muito bom, as pessoas abriram-se muito. Quando terminou esse, surgiu a ideia de fazer alguma coisa que tivesse sempre convidados um homem e mulher e serviria para descobrir se veem o mundo da mesma maneira. O nome “Saco de Boxe” surgiu como ideia do Zé Paulo, é ele o padrinho do programa (risos). Já vai no segundo round com as mesmas pessoas, mas não os mesmo pares – as pessoas nunca sabem quem são os parceiros – temos conversas sobre atualidade, sobre homens e mulheres e procuramos conhecer melhor os nossos convidados. Está a correr muito bem.

Gostaríamos de terminar com uma reflexão… Se o Cinema é imagem e a Rádio é voz, o que é mais poderoso, a voz ou a imagem?

(Pensativa) Acho que os dois são poderosos! A imagem é muito impactante no momento, é muito importante na vida das pessoas… no cinema também. Mexe connosco porque é o ecrã gigante, parece que ele entra cá dentro… há pessoas que não conseguem ver e fecham os olhos… Agora a memória auditiva é muito poderosa… e a voz na rádio… aquilo que é ouvido fica mais na memória. Não consigo comparar as duas em termos de força, mas a memória auditiva é mais forte.

A voz cria imagens?

A voz cria imagens! Leva-nos mais à imaginação. A imagem é mais momentânea, mais imediata. O cinema não é definível por palavras, não conseguimos transmitir por palavras os planos, o que sentimos, o suspense…mas há uma coisa que fica sempre: a banda sonora. É o caso do “Cinema Paraíso” [filme] exemplo em que a banda sonora transporta-nos para outros mundos, e essa fica sempre… ouvimos, lembramos o filme, mas depois temos outro tipo de emoções que já não têm a ver com o filme.

Veja também esta entrevista em vídeo: [VER]
Entrevista: Rosa Rebelo | GCI – Gabinete de Comunicação e Imagem
Fotos e Vídeo (realização): José Paulo Santos | GCI – Gabinete de Comunicação e Imagem
Agradecimento: Ao Museu de Som e Imagem de Vila Real (local da gravação desta entrevista)