Em Vila Real, nos dias 2 e 3 de Fevereiro, é tradição celebrar-se uma festa em honra de S. Brás, o qual se venera na Capela do mesmo nome, situada no interior da Igreja de S. Dinis (localizada no cemitério com o mesmo nome e que data da fundação da «pobra» de Vila Real – séc. XIII), na chamada «Vila Velha».

Alguém toca os sinos da referida Igreja, num ritmo e com uma mestria tal que parece musicar as seguintes quadras, cantadas ou trauteadas pelos moradores da zona e forasteiros mais conhecedores:

"Eu vou ao S.Brás
De cú ó p’atrás
Comprar uma «gancha»
Pr’ó meu rapaz".

"Eu vou ao S.Brás
De cú ó p’rá frente
Comprar uma «gancha»
P’rá minha gente"
"Eu vou ao S.Brás
De cú ó p’ró lado
Comprar uma «gancha»
P’ró meu namorado"

 

Nesta festa, a tradição é comprar, comer e oferecer às raparigas, as célebres «ganchas», rebuçado original de Vila Real que não faz parte da chamada doçaria conventual, antes está ligada a crenças religiosas e populares.

S. Brás (natural de Sebaste, cidade da Arménia, onde foi Bispo) é o Santo Padroeiro dos sofredores da garganta, e a «gancha» mais não é, para uns (pelo menos para os crentes e devotos do Santo), do que a iconização do báculo bispal de S.Brás, e, para outros, a representação de uma espécie de espátula usada para pincelar as gargantas doentes ou dela tirar objectos estranhos.

Ainda hoje, apesar da festa já não ter a dimensão de outrora, novos e velhos, doutores e iletrados, lá vão cumprir ou fazer «novas promessas de tagarelas afónicas, gargantas desafinadas, rouquidões tísicas, nós que não desatam, bocas abertas de espanto ou outros engaranhos orais»; mas, também, andar à volta do cemitério, sem dizer uma palavra para não entrar enguiço.

Esta festa está relacionada com a Festa de Sta Luzia, celebrada a 13 de Dezembro: na Festa de S.Brás, os rapazes oferecem a «gancha» às raparigas, e estas, na Festa de Sta Luzia, retribuem, oferecendo o «pito» aos rapazes.

No dia 13 de Dezembro, celebra-se na aldeia de Vila Nova (freguesia de Folhadela), e na Ermida (freguesia com o mesmo nome), uma Festa em honra de Sta Luzia. Nela se vendem os «pitos», que não tiveram origem conventual, antes rural e humilde.

Conta a tradição que estes doces foram inventados por Maria Ermelinda Correia, de seu nome de baptismo (depois Irmã Imaculada de Jesus), uma rapariga natural de Vila Nova e muito gulosa, após ter entrado ao serviço no Convento de Sta Clara, em Vila Real.

Porque não tinha acesso às inúmeras iguarias feitas no Convento, um dia, ao orar a Sta Luzia, orago dos cegos e padroeira das coisas da vista, teve uma visão que lhe iria permitir, às escondidas da Madre Superiora, aplacar a sua gulodice.

Na origem, os «pitos» eram feitos com farinha e doce de calondro (abóbora). Hoje já existem algumas variantes: massa folhada e creme, etc.

 

Na noite do dia 28 de Junho, véspera da Festa de S.Pedro, também conhecida em Vila Real como «Feira dos Pucarinhos», é costume (apesar de estar a cair em desuso), algumas pessoas, particularmente os jovens, comprarem algumas peças de barro preto (barro de Bisalhães), em especial as peças defeituosas (que, pelo facto, eram mais baratas), e fazerem um jogo em roda, em que a peça de barro é atirada de uns para os outros, sem direcção nem altura certa, até que alguém não a conseguisse apanhar e esta se quebrasse no contacto com o chão.

Antigamente, e de um modo especial os jovens estudantes do Liceu de Vila Real, costumavam organizar-se de maneira a que, enquanto uns distraiam os vendedores apreçando as peças que estavam mais longe, outros iam tirando as peças que ficavam mais perto da beira da rua.

Contam os mais idosos que as crianças, dado não terem dinheiro para comprar um «panelo» metiam-se por debaixo das compridas saias das pessoas mais velhas e surripiavam uma ou outra peça. Apesar da cumplicidade das donas das saias, eram, muitas vezes, descobertos.

 

Após o Natal e até ao fim do mês de Janeiro, grupos de homens e mulheres, jovens e crianças, com ou sem instrumentos musicais (muitas vezes apenas acompanhados por uma gaita de beiços), iam a cantar de porta em porta para anunciar o nascimento do Deus-Menino:

«’Inda agora aqui cheguei,
Mal pus o pé nesta escada,
Logo o meu coração disse
Qu’aqui mora gente honrada.
Avante, pastores,
Corramos a Belém,
Adorar o Deus-Menino
E à Sua Mãe.»

 Há quem diferencie «Os Reis» d’«As Janeiras», defendendo que aqueles cantar-se-iam até ao dia de Reis:

«Hoje é dia cinco,
Amanhã é dia seis,
Viemos dar Boas Festas
E também cantar os Reis».

 enquanto que as Janeiras cantar-se-iam, essencialmente, desde essa data até ao fim do mês de Janeiro, sendo que o tema das quadras também mudariam um pouco:

«Quem diremos nós que viva,
No ramo da salsa crua,
Viv’à menina da casa
Qu’alumia toda a rua.
Quem diremos nós que viva,
No pêlo do cobertor,
Viv’ó menino da casa
Qu’anda a estudar p’ra dôtor.»
Quem diremos nós que viva,
Nós não queremos ficar mal,
Vivam os patrões desta casa,
Vivam todos em geral.

No final, a porta da casa abria-se e os donos ofereciam fumeiro, nozes, castanhas, vinho, etc. Quando alguma porta não se abria, todos diziam: «Esta casa cheira a unto; morreu aqui algum defunto».

Os Jogos Populares Transmontanos, cujas origens se perdem no tempo, devem a sua recuperação e enorme divulgação à acção do Dr. António Magalhães Cabral (que foi, sem dúvida, o seu maior impulsionador), e tiveram a sua primeira grande Jornada em 13.11.1977, em Vila Real.

A propósito dos Jogos Populares, o Dr. António Cabral elaborou um apontamento psicossociológico, que tomamos a liberdade de transcrever.

" O Jogo Popular"

«O jogo consiste em transformar um meio num fim em si mesmo» - disse Piaget. Isso acontece com o jogo infantil. No seu 4º estádio de desenvolvimento, entre os 8 e 12 meses (período sensório-motor) a criança aprende a separar os meios dos fins e o jogo surge. Por exemplo: uma bola com que brinca escapa-se para trás de uma obstáculo; antes, fora do alcance visual, não a procurava, mas agora sim. Ultrapassar o obstáculo é o meio a que pode achar graça. Se o converte num fim, aparece o jogo.

O mesmo sucede com o Jogo Popular. O homem que lança fora do campo onde trabalha a pedra que o estorva, pode converter o lançamento num fim em si mesmo e assim nasce o jogo do malhão. Isso quer já dizer que os Jogos Populares se ligam ao trabalho, à experiência rural: são vivência e prazer. Claro que derivam, ulteriormente, para a exibição e a competição, mas sem corte do cordão umbilical que continua a ligá-los à vida do campo, o que já não acontece com jogos mais refinados, de alta competição, onde aquela ligação se perdeu. A simplicidade e a rudeza de processos mantêm-se no jogo popular, enquanto no jogo de alta competição o fim que era o prazer voltou a ser meio – de atingir fama, fortuna, etc. Até nos «jogos sem fronteiras», a diferença é visível: estes partem da mente para a realidade, embora mais ou menos apoiados nesta; os jogos populares partem da realidade para a realidade."

Segue-se uma listagem do nome de alguns jogos, corridas e outros:

Jogo das Argolas

Jogo da Barra

Jogo do Barril

Jogo do Batalho ou da Bilharda

Jogo do Bicho

Jogo dos Bilros

Jogo do Bota-fora

Jogo do Botão ou Pique

Jogo do Cacholo

Jogo do Carolo

Jogo do Cepo ou Galo

Jogo das Cordas

Jogo das Criadas contra Patroas

Jogo do Farelo

Jogo da Farinha

Jogo do Ferro Bacelar

Jogo do Fito (malhas)

Jogo do Galo

Jogo das Gralheiras

Jogo do Malhão

Jogo da Mosca

Jogo do Ovo

Jogo das Panelas

Jogo da Panelinha

Jogo do Pau

Jogo da Pedra

Jogo do Pião

Jogo do Pino

Jogo do Rato e do Gato

Jogo da Reca ou Choca

Jogo da Roça (ou Rocha)

Jogo do Sapo

Jogo da Sertã

Jogo da Vara

Jogo da Vassoura

Jogo de Andas (moletas ou xiola)

Corrida de Arcos

Corrida de Burros

Corrida de Cântaros

Jogo da Carvalhinha Seca

Corrida de Sacos

Desgarradas

Subida ao Pau Ensabado

Tracção à Corda

Chega de Bois

 

 

 

 

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