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Virgílio Alves: “A UTAD democratizou o acesso ao Ensino Superior”

Muito do que viveu nos 36 anos que o ligam à academia ficou profundamente arreigado na vida de Virgílio Alves. Primeiro aluno, depois professor, numa ligação estreita que ainda permanece.

O “chamamento das raízes rurais e a paixão pelos animais” foi, certamente, um fator decisivo no rumo de Virgílio Alves. Em parte, foi essa a razão que o levou a abandonar a Faculdade de Economia da Universidade do Porto e a pedir transferência para o curso de Produção Animal no “recente” Instituto Politécnico de Vila Real (IPVR). “Sou oriundo do meio rural, onde vivi até aos 10 anos e onde passei as férias escolares até por volta dos 18. Esta vivência transmitiu-me o gosto pelas ciências biológicas. Ainda hoje me interrogo como tive paciência para lidar com as ditas «ciências económicas».”
Uma das grandes novidades que o Ensino Superior aportou na região foi o facto de este passar a estar acessível a todos os estratos sociais, sem distinção. “Era visto por todos aqueles que militavam politicamente na região como uma excelente oportunidade para os jovens transmontanos, sem possibilidades económicas, frequentarem este nível de ensino fora da sua terra”, explica. Em paralelo, o IPVR veio contribuir para “a dinamização da economia regional provocada pela maior facilidade na fixação de quadros superiores na região”.
Dos tempos de estudante, Virgílio recorda com saudade os professores, mas, de todos, há um que destaca imediatamente: “professor Joaquim Lima Pereira, o meu Mestre”. Evoca-o como um homem solidário, democrata, bem informado e conhecedor. “No Professor Lima Pereira, o conhecimento era sabedoria e, como tal, tinha consequências sociais. A ele se deve o movimento de defesa e valorização das raças autóctones portuguesas que hoje existe pelo País.”
Na memória do transmontano nascido em Valpaços, guardam-se ainda os bons momentos passados em cafés e espaços de referência da cidade. “Tudo começou pelo «NECAS», o grande bar de então e o grande espaço de reflexão pedagógica e divulgação técnico-científica. Ao Guanabara, íamos no intervalo das aulas ministradas nos Bombeiros. Fazíamos debates políticos sérios e leais com o saudoso Professor Real, então apenas o grande professor de geologia.”
Era época de grande partilha de conhecimento e a amizade entre alunos e professores prosperava, “principalmente com aqueles que viviam no Hotel Tocaio e nos apartamentos da Avenida 1º de maio”. A Pastelaria Gomes funcionava como o ancoradouro das duas gerações conviventes. “Existiam também o Vacas e o Cabanelas. O primeiro era o espaço onde se estabeleciam por umas horas (enquanto os efeitos do vinho se desenvolviam) as alianças de classe: os estudantes sempre ao lado do Povo. O Cabanelas era o espaço do último fino da noite e da discussão com os ‘meninos’ da cidade, que se sentiam muito incomodados por terem deixado de ser o único referencial das miúdas vilarealenses”, recorda.
Discotecas não existiam e “não faziam grande falta”, porque “qualquer tasquinha era um espaço aprazível”. “O Carvalho, o Alemão, o Vacas ou qualquer outra dessas casas substituía, com vantagem, esses espaços mais sofisticados mas menos eruditos.”
Houve já ocasiões solenes em que Virgílio Alves foi convidado para representar os alunos da UTAD, incumbência que muito o regozijou. “Tenho muito orgulho da minha profunda ligação à academia. Aprendi com professores, funcionários não docentes, colegas e muito com as sucessivas gerações de alunos. A UTAD representa grande parte da minha vida e estou eternamente grato por tudo o que me deu.”

Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto)
Direitos Reservados (fotografia)