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Judite Soares, a funcionária diligente

Andava “atrás de emprego” quando lhe falaram da abertura do Politécnico em Vila Real, mais tarde convertido em Universidade. Candidata única, Judite Soares foi a primeira funcionária do IPVR.

Vinte dias depois da tomada de posse da Comissão Instaladora do Instituto Politécnico de Vila Real (IPVR), Judite Soares abraçava um novo desafio. “Entrei a 22 de março de 1974. O presidente António Réfega e a esposa receberam-me muito bem”, recorda.
Às portas dos 30 anos, Judite procurava trabalho e, por acaso, soube que o IPVR ia abrir. Fez um requerimento e entregou-o no Governo Civil. Foi a única a candidatar-se e, portanto, selecionada. “Mandaram-me ir à Câmara num sábado à tarde. O professor Réfega queria que ficasse logo a trabalhar, mas tinha saído de casa e não tinha avisado a minha mãe. Ele respondeu-me: «não faz mal, vá-se embora e venha segunda-feira»”. Começava, assim, a ligação umbilical à UTAD.
A autarquia vila-realense cedeu “uma salinha pequena”, onde trabalhava o presidente e Judite, que rapidamente se tornou numa aliada e confidente. “O diretor redigia os ofícios e uma professora ia datilografá-los. Eu levava-os ao correio e a contabilidade era feita por um senhor”, descreve. Além de gerir a correspondência, Judite estava incumbida de atender o telefone, ler o Diário da República, recortar as notícias para arquivar e tratar das compras. “Quando chegava à casa comercial, dizia que era para o Politécnico e as pessoas comentavam que não conheciam.”
Quando se deu o 25 de Abril, Judite estava a trabalhar há um mês e viu-se obrigada a “suspender as compras todas”. Como “não havia dinheiro”, António Réfega adiantou, do seu próprio bolso, o primeiro vencimento de Judite. “Ele era uma pessoa muito humana e respeitadora. Trabalhava dia e noite... E contava-me tudo.”
Já no edifício do Arquivo Distrital, Judite fazia o atendimento ao público e mantinha as antigas funções. “Pesava as cartas, franqueava e protocolava. As contas davam certinhas. As senhoras dos correios confiavam e já nem conferiam”, orgulha-se.
Assistiu também à primeira matrícula e, por coincidência, conhecia bem o futuro aluno. “O Nélson morava na minha rua. Fez o curso e foi trabalhar para o Alentejo.” À memória dos seus 73 anos resgata ainda o local onde decorreu a primeira aula: no salão do quartel dos Bombeiros da Cruz Verde. Judite acompanhou as dificuldades, as negociações com o proprietário da Quinta de Prados, a evolução da instituição, sempre com a mesma humildade e dedicação.
Graças à atitude metódica e desembaraçada, todos os despachos da reitoria tinham como destino a sua mesa. Judite era “muito elétrica” e enquanto não visse “aquilo despachado”, não descansava. “Na secção de pessoal, vinham resmas de papel para a minha secretária. Tinha de ler tudo, fotocopiar, entregar à chefe para protocolar e ia entregar aos gabinetes. Não gostava de ver a minha mesa cheia de papéis”, confessa.
Nos últimos anos de serviço, Judite trabalhou na central telefónica. Do outro lado da linha, reconheceram-lhe “a voz aguda” durante uma década. “Também éramos rececionistas e tínhamos que encaminhar quem chegava. O meu lema sempre foi trabalhar para o aluno e zelei o melhor que soube.”

Daniel Faiões e Patrícia Posse
(texto e fotografia)