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Emídio Gomes: “UTAD é um ativo precioso da região”

​O aluno nº153 gostava de bailes, pregava partidas na residência universitária e até jogava às cartas com as autoridades. Hoje, é o homem que comanda os destinos da CCDR-N.

Emídio Gomes ainda continua “emocionalmente muito ligado” à UTAD, por isso, quando regressa é “como se estivesse em casa”. “É o sentimento de que nunca saí e isso nunca mudou desde janeiro de 1985.”
Interessado num curso de ciências agronómicas ligado ao setor da pecuária, o portuense Emídio descobriu, para cá do Marão, uma “oportunidade interessante”. “Faziam referências a uma nova instituição formada por professores oriundos das ex-colónias e por um grupo de novos professores provenientes do Instituto Superior de Agronomia”, explica.
Em 1978/79, o IPVR dava lugar ao Instituto Universitário de Trás-os-Montes e Alto Douro, numa cidade que não tinha cinema nem discoteca. Contrariando a vontade do pai, que se disponibilizou a comprar-lhe um apartamento, Emídio encontrou um porto seguro no nº 24 da Avenida Dom Dinis. “Permaneci quase durante os cinco anos do curso na residência universitária, onde houve um espírito de partilha enorme, uma sã convivência e se fizeram amigos para a vida.” Por lá, as portas deviam abrir-se sempre com cuidado, porque quem não o fizesse, “com um empurrão com o pé, arriscava-se a que caísse alguma coisa em cima”. Sentados pelo chão ou em bancos, Emídio e os colegas assistiam às “sessões memoráveis” de «Gabriela, Cravo e Canela» no final do dia. “Ver telenovela com 30 ou 40 pessoas à volta era algo muito entusiasmante.” Pela calada da noite aconteciam as “famosas sessões de bruxas” como “sinais de boas-vindas” a pessoas que eram convidadas e se desconheciam. Como que por magia, as luzes eclipsavam-se e, de várias direções, surgiam travesseiras e jatos de água.
Nos serões que enregelavam os ossos, os polícias que faziam a ronda procuravam abrigo na residência. “O frio era excessivo, os crimes não existiam e eles entravam. Ficávamos à conversa, jogávamos às cartas, bebíamos um copo. Éramos todos bons rapazes.”
É com um tom nostálgico que Emídio evoca o espírito solidário que se vivia entre os colegas seus conterrâneos. “Na sexta-feira à tarde, juntávamo-nos para partilhar o dinheiro que tínhamos para ir de fim de semana.” No regresso, traziam farnéis reforçados que repartiam com os amigos. “Também tínhamos o hábito de entrar descalços em casa de um colega de Vila Real para ir roubar presunto, mas os pais estavam fartos de saber que íamos aparecer.”
Emídio rapidamente se tornou adepto dos “dois grandes eventos sociais de Vila Real: a noite do 1º de dezembro e o baile de S.Pedro no Tocaio, onde se podia apreciar a beleza feminina vila-realense”. Partiu “uns poucos” de púcaros no jogo do Panelo e não abandonou o vício de ir à caça para a zona de Alijó. Os jogos de futebol na Estação eram épicos: “qualquer equipa que perdesse connosco por menos de 10 era um bom resultado”. As energias eram repostas fora das quatro linhas: “depois de jantar, vínhamos trabalhar para a UTAD até às 2 ou 3h e tínhamos o hábito salutar de compensar com um whisky e gelo purificado do laboratório.”
A pensar na viagem de finalistas, Emídio e uma colega promoviam torneios masculinos e femininos de tiro aos pratos. Também se organizavam bailes para arrecadar dinheiro: “um deles contou com a atuação dos Jafumega, porque o Luís Portugal era de Vila Real e convencemo-lo a vir por um preço amigo; noutro baile, os polícias destacados estavam tão bêbados que tivemos de tomar conta deles, tal era a amizade e fraternidade.” A incursão a Paris foi o momento mais emblemático, porque Emídio e os colegas perceberam que os tempos vividos na UTAD os iam marcar “de uma forma definitiva para a vida”.
Aos 54 anos, Emídio reconhece que levou da academia “a lição da amizade e da partilha”. “Mando para cá muitos amigos ainda hoje, porque é dos melhores locais em Portugal para se estudar”, sublinha. Em 2009, Emídio ainda recebeu e aceitou o convite para presidir ao Conselho Geral da UTAD.
“Parcerias, networking com a região, crescer onde é realmente reconhecida como uma instituição diferenciadora, reorganizar-se, cortar gorduras, acabar com tribos e olhar para fora” são alguns dos desafios que a academia deverá abraçar. “A UTAD é um ativo precioso da região, por cuja valorização eu me baterei com todo o ânimo que consiga ter”, assegura o agora presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte.
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto) | Direitos Reservados (fotografia)