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Eduardo Rosa: “A UTAD é o meu berço académico”

​Aulas suspensas pelo toque da sirene, viagens atribuladas e convívios furtivos são episódios que ressaltam à memória de Eduardo Rosa, um dos primeiros alunos a ingressar na academia transmontana.
 
“Éramos tão poucos que, inevitavelmente, tínhamos de conviver, até mesmo para estudar. Não havia biblioteca nem livros, o que tínhamos eram apontamentos que partilhávamos”, relata Eduardo Rosa. A 2 de dezembro de 1975, começou a frequentar o Instituto Politécnico de Vila Real, depois de uma curta passagem por Coimbra.
A mudança fê-lo descobrir uma cidade sem estruturas para acomodar quem vinha de fora e com poucos serviços. A solução possível foi alojar-se num lar, onde dividiu quarto com cinco alunos do ensino secundário. Só mais tarde, encontraria uma alternativa com maior privacidade. O engenheiro agrícola lembra ainda a escassa oferta ao nível da restauração. Professores e alunos que podiam alargar os seus gastos optavam por um restaurante próximo do antigo sinaleiro, que “era uma alternativa um pouco mais cara à cantina da Escola Secundária S. Pedro e que servia sempre os mesmos dois pratos”. “Ao jantar, podíamos usufruir da televisão que passava a primeira telenovela de que há memória: «Gabriela, cravo e canela»”, acrescenta.
As primeiras aulas decorreram no edifício dos Bombeiros da Cruz Verde e quando a sirene soava, o que “aconteceu algumas vezes”, tinham de esperar que a azáfama cessasse. “Era uma interrupção ao nosso ritmo, mas tínhamos de conviver com isso”, ri-se.
O desempenho académico era, na generalidade, muito positivo. “Talvez se devesse ao facto de sermos poucos e de haver maior proximidade com os docentes.” Depois das aulas, continuavam disponíveis para tirar dúvidas, o que “era estranho, porque os nossos professores do Secundário não eram tão abertos”. Contudo, nem isso os poupava a batismos inconvencionais: “todos tinham alcunhas e a gente de Vila Real era muito acutilante a pôr nomes”.
O convívio com os colegas assentava em vivências que, aos 56 anos, resgatam sorrisos. “O meu parceiro de quarto era filho do proprietário da Quinta de Prados e, durante algum tempo, manteve-se, por baixo do bar do Pedrinhas, uma adega. Ele trazia a chave e oferecía-nos gentilmente o vinho.” Ao convívio regado pelo néctar dos tonéis juntavam-se sabores caseiros: alheiras, chouriças, presunto, bolos de bacalhau e bolas de carne. Para pontuar o repasto, nada melhor do que uma incursão clandestina aos ensaios de morangos do professor de horticultura. Na cidade, encontravam-se no Cabanelas, um bar “de muita qualidade e com um ambiente simpático”. “Estudávamos até à meia-noite e, depois, íamos tomar umas cervejas ou cear.”
Como professores e alunos desconheciam a região, também se programavam viagens de estudo para ver amendoeiras, vinhas, oliveiras, etc. “Mesmo não tendo bibliografia, tínhamos a possibilidade de ir ao campo ver, conhecer e aprender.” Em carrinhas Ford Transit, serpenteavam por estradas sinuosas. “Eram grandes aventuras, com condutores muito ‘fangios’ que punham em risco a nossa integridade física. Foram muitos convívios e petiscadas pela região e por esse país.”
Concluído o bacharelato, Eduardo descobriu o lema que talharia o seu percurso: “estar sempre envolvido em projetos de investigação com parceiros internacionais”. Trabalhou em escolas secundárias até abraçar a docência na UTAD, aprofundou conhecimentos além-fronteiras, foi vice-reitor para a Investigação e Cooperação, procurando instituir sempre “o espírito de internacionalização” na academia.
Com mais de 30 anos de serviço, Eduardo Rosa tem uma ligação umbilical à UTAD. “É o meu berço académico e de cultura científica. Tenho um grande sentimento de pertença a esta instituição e orgulho por ter acompanhado o seu crescimento.”
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse
(texto e fotografia)