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Cardoso Simões: “A UTAD é uma missão infinita”

​Foi graças à tenacidade de um punhado de homens que se lançaram as sementes da academia transmontana. Entre eles, Cardoso Simões, distinto agrónomo que dedicou anos de vida ao projecto UTAD.
 
Aos 90 anos, Manuel Cardoso Simões destapa uma memória invejável. Recorda com precisão datas, locais e os nomes daqueles que o acompanharam na brava incumbência de fazer nascer, em Vila Real, um Instituto Politécnico, mais tarde convertido em Universidade.
Da Comissão Instaladora lembra António Réfega, Palma Brito e Álvares Pires, bem como Colaço do Rosário, que mais tarde fez parte da engrenagem. Do grupo destaca “a grande coesão, mesmo trabalhando em condições muito precárias, com reuniões diárias, por vezes até às 5h da manhã”. Estudaram os melhores locais e esboçaram uma oferta educativa consentânea com a região, apoiada essencialmente no sector agrário. Fizeram tudo isto sob o olhar atento do povo transmontano “que se mostrava muito feliz por ser contemplado com um estabelecimento de Ensino Superior”.
Cardoso Simões integrou esta Comissão como “membro espúrio”, por ser o único sem ligação ao Ensino. O convite foi-lhe feito pela sua excelência no sector agrícola. Posteriormente, chegou a ser galardoado com a medalha de Honra da Agricultura Portuguesa.
Coube-lhe também a decisão na compra do espaço. “Havia instalações na cidade que foram equacionadas. O Seminário foi descartado por ser demasiado caro e central, e o edifício da CGD por ser exíguo. Os partidos políticos também ofereceram os seus edifícios, mas acabámos por ficar no salão dos Bombeiros, onde se deram as primeiras aulas.” Entretanto também foram adjudicadas obras de adaptação nas importantes instalações do DRM, cedidas a muito custo pelo Ministério do Exército. A Quinta de Prados aparece um pouco mais tarde no imaginário, mas rapidamente caiu nas graças de todos. “Ah, aqui sim” foi o comentário que se ouviu quando a olharam pela primeira vez. O seu proprietário era um grande industrial de fiação e tecelagem. “Aquilo não foi uma compra, foi um esbulho. Foram 52 hectares por 10 mil contos. Ele pediu 15 mil, mas aceitou a nossa primeira proposta.”
Por essa altura, Vila Real tinha escassa oferta habitacional e isso foi um problema para fixar raízes de alunos e professores. Estes últimos vieram maioritariamente de Angola e Moçambique, virando a página da descolonização. “Tivemos o cuidado de lhes arranjar casas e de lhes dar um subsídio de renda, mais 20 ou 30% além do vencimento. Fomos a única Universidade a fazê-lo.”
Cardoso Simões foi também professor e leccionou no IPVR a primeira aula de campo. “Já nem me lembro se fui o primeiro, mas é natural que sim. Podemos dar uma aula sem quase notar que a damos”, relativiza.
Cardoso Simões destaca o capítulo da Enologia como a árvore que melhor frutificou no universo académico: “o sector dos vinhos foi aquele que mais evoluiu. Os cursos das Ciências Agrárias e a Medicina Veterinária também se desenvolveram imenso”. Passados 40 anos, Cardoso Simões continua a encontrar na UTAD terreno fértil para novos desígnios: “Deixarei uma bolsa de estudo, em meu nome, com património e um depósito financeiro que a assegure”, revela.
O que mais orgulha Cardoso Simões foi ter dado a sua contribuição à comunidade transmontana. “Foi um serviço que fiz com todo o agrado e sinto que fui útil. Não tendo filhos, compreendo que isto foi também um importante complemento para a minha vida”, explica. Após quatro décadas de braço dado com a academia, considera que a UTAD é “uma missão infinita, um propósito que nunca acaba”. 
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse
(texto e fotografia)