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Ana Maria Pereira, de menina do Restelo a decana

​Empenhada numa carreira académica, Ana Maria Nazaré Pereira deixou Lisboa e aventurou-se. Foi a primeira professora doutorada da UTAD e, após 37 anos de serviço, detém o estatuto de decana. 
​Em 1977, com uma licenciatura em engenharia agronómica na mão e um filho nos braços, Ana Maria Nazaré Pereira gostaria de ter continuado no Instituto Superior de Agronomia (ISA) como docente, porém, o trilho seria outro.
Um colega de curso, que tinha rumado ao Politécnico de Vila Real, lançou-lhe o repto. “Eu, menina do Restelo, achei que seria impossível, mas resolvi experimentar”, confessa. Uma incursão exploratória, em que a viagem rendeu mais de oito horas, deixou Ana e o marido rendidos. “O difícil foi voltar a Lisboa e dizer aos nossos pais que íamos viver a 400 quilómetros de distância.”
Uns meses depois, os seus dedos batiam à porta do gabinete do diretor de curso para se apresentar ao serviço. A UTAD acabaria por ser uma resolução a longo-prazo: “nunca pensei em ir para outro sítio”. “Lembro-me perfeitamente da solenidade que foi ir tomar posse e ler o juramento”, acrescenta Ana que, aos 24 anos, se estreou a lecionar Proteção de Plantas. Com alunos “muito empenhados”, nada faria prever o sobressalto causado por um estudante que quase incendiava a barba por não se ter afastado o suficiente do Bico de Bunsen.
Durante o primeiro mês, Ana ficou alojada no hotel Tocaio e fazia sala na Pastelaria Gomes, onde chegou mesmo a tricotar. “O IPVR dava-nos cinco contos para ajuda da renda de casa, o que era significativo. Mesmo assim não foi fácil, porque não tínhamos raízes nenhumas em Vila Real.” Assim, todos os meses, se deslocavam à capital para ver as famílias, já mais conformadas com aquela mudança. “Começaram a ver que estávamos estabilizados e que íamos visitá-los.”
A adaptação em território transmontano beneficiou do facto de Ana ter vários ex-colegas do ISA. “Como já todos tínhamos filhos, juntávamo-nos nas nossas casas para conversa e reflexão uma vez por mês. No verão, íamos para as piscinas de Pedras Salgadas.”
A ligação de Ana à UTAD sofreu um interregno de quatro anos, período em que cruzou o Atlântico para fazer o doutoramento. Regressaria dos Estados Unidos em 1986 para ser a primeira doutorada na academia transmontana. Era, portanto, a única mulher do conselho científico, condição que teve de recordar ao reitor Fernando Real quando este reuniu o conselho de urgência, em sua casa. “Quando cheguei, eles mandaram-me ir ter com as outras senhoras que estavam a lanchar”, conta.
Ana foi pioneira em assentar arraiais no P3, já lá vão 35 anos. As paredes do seu gabinete são escaparates de memórias felizes: postais de cidades onde participou em congressos, fotografias várias com alunos, o guardanapo do dia do doutoramento. Aos 60 anos, consegue sintetizar a fórmula do relacionamento profícuo entre professor e aluno: “saber ouvi-los, ser exigente e demonstrar o interesse e a utilidade do que estamos a ensinar”.
Face à aposentação antecipada de alguns colegas, Ana tornou-se a professora decana da UTAD, isto é, com o doutoramento mais antigo. “Ser decana diz-me imenso, porque francamente gosto muito da UTAD. É com muita honra que vou ao que for preciso.” Por enquanto, só tem sido solicitada para os doutoramentos honoris causa.
A decana orgulha-se de ter vivido “uma época de ouro da UTAD” e gostaria de ver a instituição com “mais força” na área das Ciências Agrárias. “Tenho medo que se esteja a perder um pouco da nossa identidade. Uma universidade nesta região é uma universidade das Ciências Agrárias.” A par das aulas e da investigação, Ana dedicou os últimos quatro anos à gestão. “A carreira académica é muito interessante. Se nada me ocorrer, penso cá ficar até aos 70 anos”, confidencia.

Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)