EN

Adelino Bernardo: “A UTAD é a minha segunda casa”

​Sonhava ser médico, mas acabou rendido ao caráter técnico de engenharia zootécnica na UTAD. Somaram-se três décadas até que Adelino Bernardo regressasse à academia para um novo desafio. 

Mudança era a palavra que fervilhava na cabeça de Adelino Bernardo nos primórdios da sua passagem pela academia transmontana. A prioridade era estudar medicina, portanto, alimentou a ideia de pedir transferência. “Entretanto, começaram as cadeiras mais técnicas e apaixonei-me pelo curso de engenharia zootécnica. Fiquei e em boa hora o fiz”, salienta.
Nascido e criado no Porto, Adelino era “daqueles meninos que achava que o fiambre vinha da Sicasal” e foi graças à experiência universitária que começou a alargar horizontes. “A UTAD e os seus professores ensinaram-me a estar no meio rural, a ter vontade de perceber os problemas antes de tomar decisões e isso tem sido um lema ao longo da minha vida.”
O salão dos bombeiros da Cruz Verde repleto de alunos a prestar provas e “onde nem uma mosca se podia ouvir”, as aulas de inseminação artificial no matadouro e as maratonas de estudo para o “grande cadeirão” são recordações ainda muito prementes. “Conseguir fazer bioquímica era um ato heroico. Para estudar, colocávamos a matéria em folhas grandes e colávamo-las na parede do quarto. Ficávamos uma tarde, um dia ou dois a olhar para elas. Depois, um virava-se de costas e papagueava aquilo e os outros viam se estava certo. Era um stress terrível”, conta. No entanto, Adelino tem no professor Melo, que dava essa disciplina, uma referência. “Os alunos eram todos iguais para ele. Se não sabiam, chumbavam. Ele costumava dizer: «o aluno ou sabe e responde ou é desonesto e responde em meio termo».”
Adelino é do curso de 78-83, numa altura em que a confraternização com os colegas tinha o seu quê de imprevisível: “tanto estávamos na Gomes, como nos apetecia ir tomar café à Pousada do Marão. Também decidíamos ir a Murça ou a Vidago, porque não havia discoteca em Vila Real”. As viagens de estudo pela região eram recorrentes, mas há uma que Adelino não esquece. A turma 4 não tinha “muitas meninas”, mas elas insistiram em viajar sozinhas para Vila Pouca de Aguiar. Por isso, uma carrinha levava excesso de passageiros e a outra, menos. Foram travados pelas autoridades que, pese embora os esforços para justificar a situação, estavam “muito renitentes”. Quando um dos estudantes sustentou que se tratava de “uma questão sui generis: o Estado a multar o Estado”, o diálogo quase descambou: “o guarda não percebeu o que queria dizer sui generis e pouco faltou para lhe bater”.
Apesar de a praxe ser ainda incipiente, falava-se de “ir aos androides” e alguns caloiros “acreditavam e, à noite, davam um passeio enorme à procura deles”. A Gomes era também palco de algumas tramoias, entrando em cena Chico Cereja, uma figura típica da cidade. A troco de cinco ou 25 tostões, fazia “umas coisas engraçadas” aos caloiros, deixando-os “todos atrapalhados”. 
Rapidamente se criavam laços de camaradagem, muitos deles cimentados pela prática desportiva. “Acabávamos por nos encontrar todos no campo da Estação, os que jogavam e os que apoiavam. Éramos todos amigos e muito ligados, independentemente dos cursos.”
Após a licenciatura, era a Adelino que estava confiada a baliza da equipa dos docentes. “Estava a fazer o estágio na Direção Regional de Agricultura do Norte, mas passava muito tempo na UTAD e todos os dias tínhamos de treinar. Depois éramos campeões, porque os outros abafavam e nós continuámos a correr.”
A bagagem com que saiu da UTAD foi fundamental, sobretudo pela vertente prática do curso e pelo conhecimento da região. “Entrávamos no terreno com uma grande facilidade, porque a própria casa nos preparava para isso.” Aos 54 anos, Adelino volta a ser aluno da academia, frequentando o mestrado em engenharia zootécnica. “A UTAD é a minha segunda casa e quando estou com colegas, referimo-nos a esta instituição com muito carinho e respeito.”
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)