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Nuno Moreira: “Havia um fortíssimo espírito de missão



 
O empenho e entusiasmo dos primeiros tempos da UTAD deixaram saudades ao Professor Emérito Nuno Moreira. O desejo é que o futuro traga algum desse legado e ventos favoráveis.
 
Nuno Moreira foi um dos alunos com melhor classificação do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa (ISA) e isso valeu-lhe um convite para rumar a Norte para ensinar numa instituição de Ensino Superior que dava os primeiros passos. Em 1977, tinha apenas 23 anos quando pisou, pela primeira vez, o campus transmontano. “A UTAD era uma coisa muito pequena, mas onde havia muito entusiasmo e o empenho de todos. Arrancava um novo ensino que tinha tudo para ser diferente do que havia nas universidades clássicas”, recorda.
 
Desses primeiros tempos ficaram ainda as memórias do “fortíssimo espírito de casa e de missão”, onde reinava a ideia de que “se estava a construir algo inovador”. Natural da Póvoa de Varzim, Nuno Moreira não teve dificuldade em ambientar-se à academia transmontana porque o sentimento preponderante era de “grande amizade e união, fruto da proximidade de idades entre professores e alunos, alguns deles já casados e com filhos”.
 
O primeiro desafio que enfrentou foi lecionar as cadeiras de “Culturas Arvenses” e “Pastagens e Forragens”, sendo esta última disciplina a sua área de predileção. O ensino na UTAD foi sempre “um pouco mais aplicado”, privilegiando as aulas de campo para estimular o contacto direto dos alunos com a agricultura. Esta era uma realidade bastante diferente da que experimentara em Lisboa por não haver, na capital, um campus com características semelhantes. “Apesar de sermos muito jovens, fomos logo convidados a fazer coisas que noutra universidade mais clássica não teria acontecido. Ao fim de dois ou três anos fui convidado a fazer a revisão curricular do curso”, exemplifica, enquanto enaltece a confiança depositada nos jovens professores daquela altura.
 
Outro ponto que Nuno Moreira realça com entusiamo está relacionado com o crescimento “progressivo e constante” de todos os espaços verdes da UTAD. “Devemos isso ao professor Luís Torres de Castro que criou o Jardim Botânico, fruto de um trabalho dedicado, persistente e desinteressado. Ele conseguiu criar um espaço que fazia inveja aos colegas que nos visitavam de outras universidades.”
 
Nuno Moreira foi, também, candidato a reitor com o objetivo de garantir “mais transparência, novos critérios de gestão e recuperar um maior prestígio exterior da UTAD”. Esta notoriedade que se havia perdido, à data da sua candidatura, “viveu o seu melhor momento” durante o mandato reitoral de Fernando Real. “Enquanto Reitor, fez uma grande afirmação da Universidade durante a década de 1980. Era um homem de uma grande sensibilidade e atividade, quase que impulsivo a dirigir as coisas. Estava sempre em cima de tudo e transmitia uma grande motivação”, lembra. A sua admiração por Fernando Real levou-o mesmo a mobilizar um abaixo-assinado a pedir o regresso às funções de reitor após ter terminado a sua missão no Ministério do Ambiente. “Tenho a impressão que 98% dos funcionários e docentes desta casa subescreveram aquele documento. Apesar disso, ele quis-se reformar e não voltou”, recorda.
 
Aos 60 anos, Nuno Moreira é Professor Emérito da academia transmontana e admite que as suas principais conquistas foram o “grande trabalho experimental feito na UTAD”, algo pouco comum em Portugal, e a relação de proximidade que conseguiram criar com os agricultores da região. Hoje, as saudades abraçam vivências associadas à efervescência cultural dos anos 80, nomeadamente as semanas académicas no Teatro Avenida. “São coisas inigualáveis que tenho pena que tenham acabado. Havia sátira aos professores e à Universidade e notava-se que havia tanto de improviso como de humor.”
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)