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Leonor Pinto: “Foi um gosto ver a universidade crescer”



Por detrás da jovialidade de Leonor Pinto, estão mais de 20 anos vividos na UTAD: estreou-se nos serviços de documentação, passou pela biblioteca e trabalhou ainda na repartição pedagógica.

 
A academia transmontana estava em fase embrionária quando Leonor Pinto foi contratada para organizar os serviços de documentação. Foi a 17 de novembro de 1975, um dia de invernia em que “o gelo até se pendurava nos postes de eletricidade”. Desenrascaram-lhe um aquecedor, mas no dia seguinte devolveu-o. Graças a um professor que “trouxe uma carrada de tábuas no carro”, acendeu-se a lareira na sala e passaram “a trabalhar mais confortáveis”. 
 
Para trás, ficaram os tempos em Angola, onde Leonor chegou com 17 anos. Trabalhou como telefonista, empacotou rádios num armazém da Sony, foi datilógrafa e bibliotecária. Por fim, foi nomeada para integrar a comissão de repatriamento. Essas vivências transformaram-se em memórias assim que regressou à sua terra natal, onde “foi um gosto ver a Universidade crescer”. “Para mim, a UTAD é como quem vê nascer um filho, a gatinhar, a começar a andar, a ir à escola, a tornar-se adulto.”
 
Leonor somou quatro anos entre livros e convívios enriquecedores. “Adorava trabalhar na biblioteca, porque aprendia muito com os jovens.” Ainda hoje, com 79 anos, recupera uma conversa entre um aluno Testemunha de Jeová e outro católico: “fiquei parva a ouvi-los, discutindo calmamente, mas com uns conhecimentos de fundo que nem imagina”.
 
De portas abertas entre as 21h e a meia-noite, a biblioteca era refúgio de muitos alunos e Leonor a sua única guardiã. “Estava sempre cheia, porque onde os alunos estavam hospedados não os deixavam ter a luz acesa muito tempo nem tomar banho todos os dias”, explica. Eram tempos austeros que suscitavam confidências com a antiga funcionária e afetos de encher o peito. “Contavam-me as necessidades que tinham e até me chegavam a chamar ‘mamã’, porque eu os ajudava no que podia.”
 
Mãe de quatro filhos, Leonor chegou a lavar roupa aos estudantes, a permitir que pernoitassem em sua casa, dava-lhes “pães que não comia” e até intercedeu para que um aluno vivesse na roullote do primo. “Uma vez, passaram uns alunos que perguntaram «mamã, também veio ver o futebol?». O meu filho, com 4 anos, sai do carro disparado a dizer «oh pai, aqueles meninos estão a chamar mamã à nossa mãe»”, conta.
 
Leonor conhecia cada recanto da biblioteca, composta por “meia dúzia de estantes até ao teto”. Ali, viu nascer amores e entusiasmou-se com brincadeiras dos universitários. Por entre risos, conta o alvoroço de uma noite em que “um aluno foi pelo corredor fora dizendo que andava ali um ladrão”. “Foi uma revolução desgraçada... Até que o rapaz me diz «não se assuste que isto é uma praxe».” De outra vez, um estudante entrou na biblioteca, de saco às costas, lanterna e escadote, explicando que “o tinham mandado ir ali ter para irem apanhar ananases”. Leonor perguntou-lhe se não seria útil uma tesoura, prontificando-se a emprestá-la e aconselhando-o a consultar uma enciclopédia agrícola enquanto esperava. “Ele lá se sentou, folheou o livro e, às 23h30, diz: «se calhar os meus amigos já não vêm e não vamos apanhar os ananases»”.
 
Já afeta à repartição pedagógica, Leonor organizava provas de aptidão, de doutoramento, recebia os relatórios de estágio e encarregava-se do expediente associado aos professores que “vinham de fora para dar aulas”. “Era um gosto ver os alunos a fazer as provas de doutoramento para, depois, ocuparem lugares de destaque dentro e fora da Universidade.” Houve até uma professora que não transpunha a porta da Aula Magna e o júri já estava à sua espera. Leonor ameaçou-a: “ou entra ou leva uma palmada nesse rabo que entra já”. “Ainda hoje, diz que se eu não a tivesse empurrado, não teria feito o doutoramento”, acrescenta.
 
Aposentada há 17 anos, Leonor conta que os encontros casuais com antigos alunos são momentos de felicidade ímpar: “quando me encontram na rua, fazem-me uma festa e fartamo-nos de rir”.
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)