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Jardineiros da UTAD, os mestres da biodiversidade



Podam, regam e limpam as inúmeras espécies do segundo maior Jardim Botânico da Europa. Cuidam deste laboratório ao ar livre enquanto preservam o legado deixado por alguém inigualável.

 
Há 25 anos, o professor Torres de Castro era a voz de comando da equipa de jardinagem da UTAD e foi ele o mentor daquilo que viria a ser um dos maiores jardins botânicos do velho continente, superado apenas pelos Kew Gardens, os sumptuosos jardins londrinos. “Já não se fabricam pessoas como ele. Nunca o vimos como um chefe e falávamos sempre de igual para igual. Era um ótimo colega de trabalho, se assim se pode dizer”, atira Carlos Tomás, 47 anos.
 
António Gomes e Domingos Cima são os outros elementos da equipa de jardinagem que tiveram o “privilégio” de aprender muito do que sabem com o saudoso professor, entretanto aposentado.
 
Apesar de “ser lei” tudo aquilo que dizia, Torres de Castro valorizava os comentários e as sugestões do seu grupo de trabalho. “No início, não tínhamos a noção de que isto viria a ser um jardim botânico. Depois é que se foi planeando nesse sentido, dividindo o espaço por coleções. Ele idealizava e pedia sempre opinião em conversa. Era tudo planeado connosco no terreno”, revela António Gomes, 43 anos.
 
Também Domingos Cima, 49 anos, classifica esse tempo como “a época de ouro” do Jardim Botânico da UTAD. Entre outras coisas, os jardineiros faziam formações para aprender a subir às árvores em segurança, organizavam saídas de campo para recuperar árvores e participavam em seminários. Pelo meio faziam “apostas entre todos para ver quem sabia o nome de mais espécies”. “Era uma forma de lembrar o que íamos aprendendo com o professor que nos ensinou quase tudo”, recordam sorridentes.
 
A coleção das Resinosas Ornamentais, junto à reitoria, é a zona que mais encanta estes funcionários da UTAD. Aos seus olhos, é a área mais bonita por ser mais densa e estar sempre limpa. “Salta mais à vista, está mais apresentável e gostamos dessa coleção porque já foi plantada por nós”, justifica Carlos Tomás.
 
Os relvados da UTAD, por representarem uma extensa área do campus, são os que exigem mais trabalho e manutenção. Já os mortórios do Douro são os mais desafiantes e custosos por se situarem em encostas íngremes e de difícil acesso.
 
“Camélia japónica, araucária, podocarpus, jacarandá ou sombrinha do Japão” são palavras que fazem parte do dia a dia destes trabalhadores. Algumas destas espécies requerem cuidados especiais e bastante sensibilidade. “Há muita coisa no campus que se estivesse lá fora, num jardim ornamental, poderia ser considerado lixo ou erva daninha. Para nós, é importante manter essas espécies. Como tal, temos de ter o cuidado de as saber distinguir e preservar”, explica António Gomes.
 
Apesar de contarem com a ajuda de dois tarefeiros, os três jardineiros gostariam de ver reforçado o grupo de trabalho por ser “extremamente complicado fazer a manutenção de uma área tão vasta e trabalhosa com uma equipa pequena”. Por outro lado, consideram que seria benéfico haver mais sinalética para ajudar a descodificar o jardim e as suas coleções. “Há pessoas que, já dentro da UTAD, nos perguntam onde fica o jardim botânico, porque não sabem que todo o campus é um jardim imenso. Seria importante dar a conhecê-lo a mais pessoas e envolver também os alunos. Só dessa forma o podem entender, apreciar e preservar enquanto passeiam por ele todos os dias”, concluem.
 
Texto e fotografia: Daniel Faiões e Patrícia Posse