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Internacionalização e enologia, os baluartes de Arlete Faia

Ainda no ativo, Arlete Faia é a docente com mais anos de serviço, tendo impulsionado o curso de Enologia, o intercâmbio científico com a Europa e a mobilidade internacional.
 
“Eu e os meus colegas começámos como assistentes estagiários, mas éramos catedráticos, porque tínhamos de fazer os programas das aulas teóricas e práticas. Eu era ainda mãe e a começar a vida de novo e sem nada”, afirma Arlete Faia sobre os seus primeiros tempos na academia transmontana, aonde chegou em 1976 para lecionar microbiologia.

Licenciada em Engenharia Agronómica pela Universidade de Luanda, Arlete optou por fazer investigação na área do vinho, porque era o que “fazia mais sentido numa região como esta”. As suas mãos também ajudaram a instalar o primeiro laboratório de microbiologia na UTAD e os três que se seguiram.

Em casa, Arlete ainda encontra fotografias dos primeiros alunos. “Eram mais maduros do que agora, com mais vontade de aprender e mais empenhados.” Apesar de ser “quase da idade deles”, sempre houve um entendimento profícuo: “era eu a tentar fazer o meu melhor e eles a colaborarem”.

O relacionamento com os colegas era sedimentado por camaradagem e extrapolava até os muros da academia. Havia convívios quando os filhos celebraram aniversários e, normalmente ao fim de semana, juntavam-se “nas casas uns dos outros para lanchinhos e jantarinhos”. As confraternizações aconteciam também entre docentes e funcionários, com bailes por alturas do Carnaval, dos Santos Populares e da passagem de ano. “Era divertido. Toda a gente levava uma multa [prato] e havia uma sensação de partilha interessante.”

Arlete teve a possibilidade de ir trabalhar para a Nova Zelândia, mas a família ditou a decisão de permanecer. “Nunca me senti amarrada, antes pelo contrário. Em 1983, o Roger Boulton (da Universidade de Davis) veio para a UTAD e foi uma experiência pessoal e profissional extremamente enriquecedora.” Sob a sua orientação, fez o doutoramento, com troca de impressões através de cartas, esperando 15 dias por uma resposta que “às vezes era uma frase”. Depois de ser sido coordenadora de departamento e com um Pós-Doc no currículo, Arlete foi diretora da licenciatura em Enologia durante 13 anos.

A UTAD chegou a ser a única instituição de Ensino Superior em Portugal com um bacharelato em Enologia, que “nasceu como deviam nascer todos os cursos”. “As empresas acharam que precisavam de técnicos e nós demos resposta”, sublinha. O objetivo era “fazer um curso com base naquilo que existia na Europa”, por isso, a comissão, da qual Arlete fazia parte, foi beber da experiência de Montpellier. Não sobrou uma vaga e havia alunos que “nunca tinham tido contacto com a enologia nem com a viticultura e acharam interessante”. “Hoje fazem os vinhos premiados da maior parte das empresas do setor”, acrescenta. Criada em 1988, a licenciatura privilegiava a filosofia de “ensinar a fazer com o máximo de conhecimentos teóricos”. Graças a esse pioneirismo, a UTAD afirmou-se como um rótulo de garantia dos néctares produzidos dentro e fora da região, assumindo “um papel extraordinariamente importante no desenvolvimento da enologia em Portugal”.

Nesse tempo, Arlete era também responsável pelos Programas de Intercâmbio com a Europa Ocidental e, mais tarde, com a Europa de Leste. “Estive sempre muito envolvida no intercâmbio interuniversitário. A maior parte dos alunos de enologia ia fazer estágios lá fora e, por cá, recebíamos estudantes espanhóis, gregos e italianos.”

Muitos dos alunos que se sentaram à sua frente ainda se furtam às teias do esquecimento e, aos 63 anos, Arlete continua a par dos destinos daqueles que mais a marcaram. Por outro lado, continua “a não ir para uma aula sem antes fazer revisões e modificar o PowerPoint”.

Quando perspetiva a reforma (prevista para 2016), Arlete não esconde o seu estado de alma: “é das coisas que tenho pena, porque sou uma pessoa super workaholic”. “Até há quatro anos, nunca tinha gozado um mês de férias. Sempre tive 10 dias úteis. Quando me reformar, vou ter de arranjar uma nova rotina, um projeto próprio”, adianta.
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)