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Ester Figueira: “Era como se os alunos fossem meus filhos”

O primeiro aluno da academia foi matriculado por Ester Figueira, cujos 20 anos de trabalho nos serviços académicos e financeiros lhe valeram merecidos reconhecimentos, inesquecíveis convívios e doces lembranças.

O momento solene e “vivido com intensidade” está plasmado numa imagem sem cor. Na mesa colocada no topo da escadaria do Arquivo Municipal, Ester Figueira fez a primeira inscrição do IPVR. “O Nelson Correia era de Vila Real e ficou contente por ser o número um. Era capaz de tremer um bocadinho ao preencher o boletim... Depois, veio o fotógrafo e acabou”, conta.
 
Quando a tensão em Moçambique se adensou, Ester regressou ao país natal, com os dois filhos. O marido, diretor de aeronáutica, conseguiu-lhe uma vaga, mas o reitor da Universidade de Lourenço Marques, onde era funcionária dos serviços administrativos, obrigou-a “a apresentar o bilhete de ida e volta”. “Só me deixou vir nessa condição, mas chegada a Lisboa, disseram-me que podia ficar e já não voltei.” Rumou à casa da mãe em Cabêda, aldeia do concelho de Alijó.
 
Através de uma amiga com quem se cruzou em Vila Real, Ester soube da abertura do IPVR. Num ápice, dirigiu-se à secretaria, então “nos fundos da Câmara”, onde lhe recomendaram que entregasse uma carta e o currículo. A 13 de maio de 1977, o telefone tocou e ela mostrou-se disponível para se adaptar a qualquer cargo.
 
Ao balcão dos serviços académicos, Ester atendia os estudantes, vendia-lhes os apontamentos, informava-os das classificações. “Havia falta de livros e faziam-se muitas fotocópias para poderem estudar. Alguns faziam os exames e iam embora. Às vezes, telefonavam para saber que nota tinham.” As matrículas, as cadernetas dos alunos, os termos de exame, a afixação das pautas eram outras tarefas da sua responsabilidade. Aos seus ouvidos, chegavam-lhe os namoricos e os desabafos sobre os professores. Ester não esconde o desvelo com que tratava aqueles primeiros alunos: “eram extraordinários e gostava imenso deles, era como se fossem meus filhos”. Aos 79 anos, ainda sabe de cor os seus nomes e guarda, com profunda estima, os postais que lhe enviavam durante as férias. “Quando vinham a Vila Real, passavam pela secretaria e iam cumprimentar-me. Havia um elo de amizade.”
 
O ambiente de trabalho, entre colegas e até com docentes, era “muito bom, não havia distâncias”. Também nunca perdeu a oportunidade de participar nos encontros anuais de funcionários de outras universidades. “Fomos a Lisboa, à Covilhã, a Faro. Era uma coisa fantástica para nos conhecermos.” Apenas o acolhimento pela população vila-realense a marcou negativamente: “receberam-nos muito mal. Eu vivia num sótão porque não arranjava casa. O maior martírio foi ser retornada, mas tenho orgulho de o ser”.
 
A progressão na carreira determinaria uma mudança que, no íntimo, não se coadunava com o seu desejo. “Adorava ter ficado sempre nos serviços académicos, mas cumpri. Fui para a contabilidade, mas nunca esqueci aqueles alunos.” Como chefe da Repartição Financeira, o que mais lhe agradava eram as viagens a Lisboa para entregar o orçamento e a conta de gerência. Um dia, o reitor Fernando Real sugeriu-lhe que fosse de avião e Ester, tão habituada “a conhecer as terras moçambicanas do ar”, acedeu de bom grado. “Foi engraçado porque o avião foi a Bragança e depois é que aterrou em Vila Real. Fiquei encantada da vida e escusei de pagar a pensão.”
 
Ao completar 20 anos de serviço, Ester foi galardoada com uma medalha que exibe com humildade, assim como a moldura onde se pode ler o louvor pelos préstimos à academia. “Os meus colegas fizeram-me uma festa muito boa e estes versos...”, mostra enquanto folheia álbuns de fotografias alegres. A reforma chegou aos 60 anos, mas o sentimento de pertença continua intocável. Quando Ester se cruza com professores aposentados, é “uma festa”. “Ficamos tempos infinitos à conversa e o meu marido até diz «tomara que não encontres ninguém da Universidade»”, o que lhe rouba um sorriso franco.
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)