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Elísio Amaral Neves: “A UTAD viveu anos exuberantes”


 
Vila Real testemunhou anos de verdadeira efervescência graças a várias gerações académicas. O investigador faz o retrato de uma cidade que soube acolher a avalanche cultural e a mudança social.
 
A presença da UTAD em Vila Real é uma questão de riqueza e de identidade, sendo para Elísio Amaral Neves difícil de imaginar a cidade sem a academia que se estende aos olhos do Alvão. "Há muito que Vila Real deixou de ser uma cidade calma, que fechava em agosto para ir a banhos à Póvoa de Varzim, muito por culpa da chegada do Ensino Superior.”
 
Para este estudioso da história local, Vila Real muito deve a uma “geração extraordinária” que a soube habitar, enquanto a revolucionava e transformava. “Entre 1986 e 1988, Rúben Clara da Fonseca, acompanhado por Paulo Cristina e Rui Costa Ramos criaram a rádio Universidade do Marão, transformaram a noite de Vila Real, abrindo bares e restaurantes, e asseguraram o divertimento e o bem-estar da própria academia. Vila Real era um local calmo até à chegada desta rapaziada.”
 
Talvez o bar “Barumbarero” tenha sido o epicentro da diversão noturna, que culminaria nos negócios que se instalaram no Pioledo até aos dias de hoje. A noite vila-realense era de tal forma notada e comentada que chegava a ombrear com as de Braga, Coimbra ou Porto. “Por essa razão, cheguei a convidar jornalistas de outros pontos do País para que viessem até cá para fazerem uma interpretação da noite de Vila Real”, lembra Elísio Neves.
 
Da “geração de ouro” de presidentes da associação de estudantes da UTAD, o investigador destaca José Ribau Esteves e Paulo Colaço, figuras de grande importância por terem “uma visão extraordinária” que contribuiu para a pujança que a academia acabou por manter nos anos subsequentes.
 
Segundo o investigador, a vontade de instalar uma Universidade em Vila Real remonta a 1882 e está explicitada na publicação “Código Social”, assinada por Antonio Narcizo Alves Corrêa. Nesse documento, é sugerido um modelo de República para Portugal e para o Brasil, criando uma Constituição onde cabem dois estabelecimentos de Ensino Superior para Vila Real e para Bragança. “Nos anos 1910 do século XX, assistimos ao movimento da Renascença Portuguesa, que vai ter, localmente, alguns representantes. Em Vila Real vai ser criada uma Universidade Popular onde se lecionava, à data, um curso de Inglês”, esclarece. Entre os finais de 1960 e inícios de 70, acontece um Colóquio de Desenvolvimento Regional do qual se conclui que deve ser criado um estabelecimento de Ensino Superior na região.
 
Elísio Neves não tem dúvidas de que tudo seria diferente se nos últimos 40 anos, a UTAD não tivesse trazido mais movimento, multiculturalidade, professores e alunos com massa crítica para esta zona do País. “Foi o melhor presente que me deram, na medida em que pude conhecer professores chineses, ingleses, americanos, etc, e conviver com jovens extraordinários, vindos de outras latitudes, num processo contínuo de aculturação. Sinto-me rico com a presença da UTAD em Vila Real.”
 
Agora, o desafio da academia transmontana prende-se com a contínua afirmação dos cursos de Enologia, Desporto, Agronomia, Veterinária e Zootecnia, bem como a urgência de uma oferta formativa de excelência ao nível do turismo “pelo que este setor representa para a região do Douro e pela importância que tem na balança comercial do País”. Outro aspeto que marca Elísio Amaral Neves é o vínculo a Vila Real que todos os que aqui estudaram vão manter ao longo das suas vidas. “Quase, sem exceção, o jovem universitário tem orgulho do curso que fez na UTAD, da relação que criou e da mescla cultural da qual fez parte. Quem passa por aqui tem, certamente, no ADN dos filhos muita coisa que aqui encontrou, viveu e aprendeu.”
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)