EN

Cristina Marrote: “Acabei por ser uma segunda mãe”

 

 

Ao longo de 36 anos, preparou as refeições de milhares de alunos. Eles sempre a acarinharam, ao ponto de um deles se tornar padrinho do seu filho mais novo.
 
Quando Cristina Marrote se dirigiu ao edifício do DRM para se candidatar ao lugar em aberto no refeitório da UTAD, não sabia que estava a concorrer para o primeiro e único emprego da sua vida. Foram anos de “muito trabalho e dedicação” que lhe chegaram a valer um louvor, uma distinção pela boa gestão dos refeitórios que coordenou.
 
Aos 70 anos, já reformada, Critina Marrote recorda com saudade a azáfama dos primeiros tempos: “entrei como preparadora de cozinha, mas já cozinhava. Preparava tudo aquilo que ia para as panelas, como o peixe, a carne ou os legumes”. “Desde sempre, fizemos comidas muito boas”, ressalva.
 
Por essa altura, havia poucos alunos na UTAD e a cantina acabava por funcionar quase como “um restaurante com uma sala grande”, escolhido também por alguns professores. “Sempre tentei gerir tudo da melhor maneira. Coordenava os meus colegas, as suas funções, fazia as encomendas e lidava de perto com o nosso fiel de armazém”, relata.
 
Para além das funções ligadas à cozinha, Cristina Marrote era também conhecida, pelos estudantes, pelo seu lado mais humano. Era comum levar alguns deles a almoçar, aos domingos, a sua casa, onde preparava “as coisas boas que eles mais gostavam”. “Era um grupinho de três ou quatro alunos, de quem eu gostava muito, e eram todos de longe. Fazia sempre um assado e eles adoravam. Estes alunos afeiçoaram-se muito a mim porque os tratava como família.” Por haver esta ligação tão intrincada, Cristina Marrote acabou por aceitar um deles como padrinho do seu filho mais novo. “Hoje, tenho um compadre alentejano, o Claudino. Era um dos alunos que mais falava na hipótese de ser padrinho do bebé que eu esperava”, revela. Quando via Cristina Marrote aparecer atrás dos balcões do refeitório, brincava com essa possibilidade: “até me perguntava se o «Zé Manel» se portava bem, mas nessa altura, eu ainda nem sabia se ia ter um menino ou uma menina”. A verdade é que a criança nasceu, ficou com o nome de José Manuel e tem, hoje, um padrinho alentejano, ex-aluno da UTAD.
 
A antiga colaboradora da academia transmontana tinha especial carinho por estudantes oriundos de cidades distantes, por estarem mais sozinhos do que os restantes. “Às vezes, alunos de fora, dos Açores, da Madeira, de Lisboa ou das ex-colónias, ficavam com gripe e não tinham quem tomasse conta deles.” Por isso, os desvelos cabiam a Cristina Marrote, que, por várias vezes, preparava leite com mel em sua casa para lhes levar. “Cheguei a comprar medicamentos para tratar gripes e, ainda, fiz algumas «canjinhas», que lhes levava à residência de Codessais. Fui um bocadinho mãe para muitos deles e gostei muito desse papel”, confessa.
 
Depois de 36 anos de serviço, Cristina Marrote admite que, se pudesse, continuaria a desenvolver o seu trabalho nas cantinas e no restaurante Panorâmico da UTAD por mais algum tempo. “É certo que continuava a trabalhar se me deixassem, porque sempre gostei muito do que fiz.” Contudo, agora que está aposentada, a antiga funcionária olha para a UTAD como “uma experiência de vida muito boa, em todos os sentidos”. “Arranjei um emprego, o primeiro e último da minha vida, e muitos amigos, de várias idades”, conclui. 
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)