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Carlos Coelho Pires: “Fazíamos um ensino com o coração”

 
 
Investigar e ensinar sempre foram prioridades para Carlos Coelho Pires, o primeiro doutorado em Geologia pela UTAD, impulsionador da carta geológica de Vila Real e benemérito do Museu de Geologia.
 
A principal lição de Carlos Coelho Pires traduzia-se numa interpelação aos seus alunos, seguida de uma resposta pronta: “sabem o que significa ser licenciado? É licença para estudar sozinho. Depois é que vocês vão aprender”.
 
Durante 23 anos, Carlos integrou o corpo docente da academia transmontana, ciente da relação privilegiada com os seus discípulos. “Sou filho de pessoas muito modestas e nunca me esqueci disso no convívio com os alunos. Sempre tentei compreendê-los.”
 
Nascido em Alijó, Carlos abriu mão do sonho de ser médico e licenciou-se em geologia, sob a chancela da Universidade de Coimbra. Foi aí que trabalhou como assistente, com uma breve experiência na Universidade de Lourenço Marques, em Moçambique.
 
Em 1979, chegou ao Instituto Universitário de Trás-os-Montes e Alto Douro, empenhadíssimo em investigar. “Comecei logo a fazer trabalhos de campo e a carta geológica de Vila Real. Não havia laboratórios que nos permitissem grandes voos, mas socorri-me dos contactos que tinha.” Cartografia e fisiografia foram as suas primeiras disciplinas, cujo material de apoio era escrito por si. “Foi uma época épica, porque ultrapassávamos as dificuldades com dedicação”, refere.
 
Assim que o curso de Biologia e Geologia arrancou, “o primeiro do País a ser criado com esta ambivalência”, Carlos lecionou todas as unidades curriculares. Enquanto coordenador de departamento, aconselhava os assistentes a não ficarem “agarrados a uma disciplina”. “Na distribuição de serviço, o máximo que podiam estar amarrados a uma cadeira eram três anos.”
 
O seu departamento tinha a menor taxa de reprovações, afinal “o professor que reprova muitos alunos é pior do que aquele que tem um maior índice de sucesso”. “No ensino universitário, prevalecia a ideia que o professor, o cientista, tinha de reprovar muito porque os alunos não estavam à sua altura”, relembra. Aquando da visita de uma comissão de avaliação, Carlos foi confrontado. “Noutros cursos de geologia, nunca costumam ter menos de 50% de reprovações e na UTAD é inferior a 15%, o que se passa?” A justificação saltou-lhe: “a mim, pagam-me para ensinar e não para reprovar. O meu objetivo é não ter reprovações e só me sinto realizado quando isso acontecer”.
 
O primeiro doutorado em Geologia pela UTAD era inflexível com atitudes desadequadas. Um dia, um aluno apresentou-se de calção, camisa caveada e chinelos. Não lhe permitiu assistir à aula, porque “ali não era a praia”. “Fiz o mesmo com um assistente que ia dar uma aula de calção. Mandei-o ir vestir-se primeiro.”
 
As visitas de estudo a locais de interesse geológico da região e do País permitiam uma camaradagem que não se estabelecia dentro da sala. “O convívio era mais aberto. Além disso, viam no terreno aquilo que lhe dávamos a conhecer em aulas teóricas”, conta o benemérito do Museu de Geologia.
 
A sua presença era também requisitada para os jantares de curso e nunca faltou à chamada. Aos 72 anos, continua a chegar-lhe a casa, por alturas do Natal, uma garrafa em sinal de gratidão pelo seu trabalho como orientador. “Já passou tanto tempo, mas a senhora disse que enquanto os dois fôssemos vivos, nunca se esqueceria da maneira como eu a ajudei.”
 
Até 2002, lecionar e investigar sempre foram conjugados no imperativo. “Quando se decide fazer carreira universitária, não se pensa noutra coisa. Quando fui deputado, sabia que tinha de voltar e nem cumpri o mandato. Ao fim de três anos, decidi: vou fazer aquilo que gosto.” Aos colegas e alunos, a mensagem do ex-professor catedrático era assertiva: “não encontrei em universidades clássicas (como a de Coimbra) um ensino melhor do que aqui”. “Fazíamos um ensino com o coração. Dedicávamo-nos inteiramente aos alunos, à disciplina, à Universidade”, salienta.
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)