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Armando Moreira: “Universidade foi fundamental para desenvolver a cidade”

 
 
Enquanto autarca, Armando Moreira marcou incontestavelmente, a história da UTAD. Bateu-se pelo ensino universitário em Vila Real, travou a transferência da capela do Espírito Santo e cedeu habitações para docentes.
 
O diploma que haveria de dar origem ao Instituto Universitário de Trás-os-Montes e Alto Douro foi escrito na cozinha de Armando Moreira, à época presidente da câmara municipal de Vila Real. “Estava com o Dr. Aires Querubim, que era Governador Civil, e com o deputado Manuel Fontoura”, lembra o antigo edil. O documento foi discutido na Assembleia da República e, em setembro de 1979, foi promulgada a lei que viria a pôr cobro a um processo conturbado. “Fui eu que insisti para ser Instituto Universitário de Trás-os-Montes e Alto Douro e não Instituto Universitário de Vila Real. Só não se passou logo para universidade porque existiam muitos custos.”
 
Em 1977, Armando Moreira estreava-se na liderança do executivo municipal, ao qual já tinham sido comunicadas “algumas das dificuldades do Politécnico, nomeadamente as instalações”. A cidade pugnava pela manutenção de “um tipo de ensino que formasse rapidamente os técnicos de que a região carecia, designadamente na agricultura, floresta e pecuária”. Contudo, movido pelas conversas com alguns docentes, Armando Moreira não concordava com a opinião vigente. “Se continuássemos como Politécnico, a maior parte dos professores iria abandonar, porque queria seguir carreiras universitárias.”
 
A sua posição foi avante e surgiu uma comissão instaladora presidida pelo professor Fernando Real, que “tinha raízes em Vila Real e tinha sido vice-reitor em Luanda”. Aquando da tomada de posse no Governo Civil, houve aplausos para Armando Moreira: “estava contentíssimo, tanto mais porque se percebia que tinha sido eu a forçar tudo”.
 
O ex-presidente sempre manteve um relacionamento próximo com o então reitor. Era raro o dia em que não contactavam e, ao fim de semana, trocavam impressões e abordavam problemas entre uma jogada e outra. “Encontrávamo-nos em casa do Fernando Real para jogar canasta com as nossas esposas. Falava-me dos projetos e pedia-me para dar uma ajuda, para falar com fulano e sicrano. Sempre tive muita sorte porque caí no goto do Primeiro-Ministro Sá Carneiro e era só telefonar. Com o Francisco Pinto Balsemão era a mesma coisa.”
 
Entretanto, inaugurou-se o Bairro da Araucária e Armando Moreira atribuiu 50 habitações para o Instituto Universitário, porque “professores e funcionários tinham muita dificuldade em encontrar alojamento”. O fluxo de docentes contribuiu para que a cidade ganhasse massa crítica, com “o surgimento de muitos movimentos culturais”. “No meu primeiro e segundo mandatos, quando queríamos fazer alguma atividade, não havia anfiteatro. O primeiro anfiteatro digno desse nome foi no Pedrinhas”, acrescenta.
 
Há um “episódio interessante” que desafia a memória dos seus 75 anos. “Quem fez o primeiro contrato com a família Santoalha, não acautelou a posse da capela do Espírito Santo. Um belo dia, os proprietários vieram com uns camiões para levá-la.” Para travar a transladação, coube-lhe decretar o estatuto de utilidade concelhia.
 
À frente da autarquia durante 17 anos, Armando Moreira considera que o que conferiu mais prestígio à academia foi o Plano de Desenvolvimento Rural Integrado de Trás-os-Montes e Alto Douro (PDRITM), não só porque canalizou avultadas verbas, como permitiu a realização de vários doutoramentos no estrangeiro. “A Universidade foi fundamental para o desenvolvimento da cidade a todos os níveis”, sublinha.
 
Volvidas quatro décadas de Ensino Superior em Vila Real, Armando Moreira defende que é imprescindível o regresso da UTAD “à sua função de extensão rural”, porque nas suas fileiras possui “técnicos preparados para revolucionar a nossa agricultura e a exploração florestal”. “Está na altura de lançar um segundo PDRITM com base na Universidade. Desafio a CCDRN, que detém os fundos, e a UTAD para que deem corpo a esse projeto.”
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)