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Alfredo Cristelo na era da ficção científica da UTAD



Alfredo Cristelo deixou Moçambique com uma missão em mãos: impulsionar o uso dos meios informáticos na academia transmontana. Já depois de reformado abraçou outro desafio: licenciar-se em teatro.
 
Bastou uma carta, datada de 1978 e enviada pelo antigo Instituto Politécnico de Vila Real (IPVR), para mobilizar o interesse de Alfredo Cristelo em trabalhar na região do Douro. “Na altura, era preciso criar um Centro de Cálculo e precisavam de alguém com os conhecimentos em informática que eu tinha obtido na IBM, em Lourenço Marques”, explica.
 
Embora tenha sido um “processo muito trabalhoso”, valia o facto de as pessoas serem muito dedicadas à causa. “O Centro de Cálculo era quase uma amante que eu tinha. Vinha de manhã e saía às quinhentas da madrugada”, brinca. Inicialmente, Alfredo Cristelo contou com a ajuda de um Wang, uma consola com ecrã de raios catódicos e com um suporte de memória externa igual à das cassetes de música, o que causava estranheza a quem o via manobrar o aparelho. “Havia quem passasse pelas nossas instalações e ficasse para ver. Curiosos com a utilização da cassete, igual à que usavam nos seus rádios, perguntavam se aquilo dava música”, conta o antigo funcionário da UTAD. Este computador dos primórdios da informática tinha apenas 16K de RAM, mas foi com ele que se fizeram “coisas interessantes” ao nível da criação de software.
 
As funções de Alfredo Cristelo passavam por utilizar a informática como ferramenta auxiliar nos cálculos e na optimização dos resultados. Exemplo disso foi a aplicação para processamento de salários que criou, o que fez com que o trabalho de um mês pudesse ser  despachado em menos de uma tarde. Quando essa aplicação começou a funcionar, Alfredo Cristelo chegou mesmo a ir à presença do reitor Fernando Real para demonstrar o processo. “Perguntou-me se aqueles valores estavam todos certos e se podíamos confiar na máquina. Eu disse que podia confiar, mas, ainda assim, ele pegou na máquina de calcular, escolheu aleatoriamente uma coluna e pôs-se a somar os valores com a calculadora para ver se batiam certo.”
 
O avanço que as suas aplicações trouxeram às dinâmicas da época desencadearam, também, percepções de detractores e Velhos do Restelo. “Arranjei uns inimigos de estimação porque havia mentalidades muito retrógradas em relação a tudo o que era inovação. Havia quem nos chamasse os «maluquinhos dos computadores», mas nós lidávamos bem com isso.” Por outro lado, Alfredo Cristelo tinha a admiração de muitos alunos que o referenciaram nos agradecimentos das teses de doutoramento, pela ajuda prestada pelas suas aplicações informáticas na obtenção de resultados.
 
Alfredo Cristelo chegou a Portugal em 1977 e desconhecia por completo Vila Real e Trás-os-Montes. Era uma zona do País “inacessível” e “muito distante”. Apesar disso, entrosou-se rapidamente no dia-a-dia vila-realense e fez bons amigos, que ainda hoje mantém. “Quando vim, estava lançado à minha sorte. Este foi o primeiro e único trabalho que tive desde que vim de Moçambique, mas o relacionamento era óptimo. As amizades eram generosas e havia sentido de camaradagem, respeito e consideração pelos outros.”
 
Reformado em 2002, Alfredo Cristelo regressou em 2010 à UTAD para dar asas a uma paixão antiga: o Teatro e as Artes Performativas. “Sempre tive algum jeito para representar e cantar, por isso, lancei esse desafio a mim próprio. Entrei na licenciatura e fui colega de um grupo de jovens que são o máximo. Gostam imenso de mim, chamam-me «avô Fredo» e até me escolheram para representante de curso.”
 
Hoje, aos 65 anos, Alfredo Cristelo não esconde um desejo muito especial: ver, na UTAD, um museu dedicado à informática, onde fique exposto algum do material com que trabalhou ao longo dos anos, nomeadamente o seu fiel parceiro de trabalho – o computador Wang.
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)