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Afonso Martins: “A UTAD é uma escola de elite”



Decorridos 37 anos na academia transmontana, Afonso Martins classifica-a como uma casa de saber em constante evolução, onde as relações entre professor e aluno sempre foram privilegiadas e marcantes.
 
“A UTAD foi a instituição à qual dediquei toda a minha atividade profissional durante a maior parte da minha vida e, obviamente, levo-a dentro de mim para sempre”, afirma Afonso Martins, quando lança um olhar retrospetivo sobre a sua carreira académica.
 
Foi no departamento de Biologia e Ambiente que descobriu o prazer de ensinar. Progressivamente, foi percebendo que ser docente é uma atividade “muito interessante” porque permite conviver permanentemente com novas gerações. “A sua autenticidade, curiosidade, alegria e irreverência acabam, também, por nos alimentar e estimular.”
 
Corria o ano de 1977 quando Afonso Martins, saído há dois meses do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, encetava a sua relação com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Fazia parte do grupo de professores que iniciava funções e que muito viria a aprender com os experientes docentes que chegavam das ex-colónias. “Esta conjugação de esforços dos dois grupos foi muito importante. Os que vinham de Angola e de Moçambique já tinham experiência de ensino e de investigação. A eles juntou-se um grupo de jovens que se tinha acabado de formar, com grande dinamismo e vontade de trabalhar. Foi uma experiência belíssima”, recorda.
 
Afonso Martins acompanhou de perto a evolução da academia transmontana, considerando os acordos conseguidos com a Agência Internacional para o Desenvolvimento, da Fundação Luso-Americana, e com a Holanda como fulcrais para o desenvolvimento da instituição. “Isso permitiu que viessem professores dos EUA para cá e, também, que nós fizéssemos cursos de curta duração nesses países. Alguns de nós fizeram, assim, os seus graus de mestrado e de doutoramento, o que ajudou ao enriquecimento do nosso corpo docente”.
 
Afonso Martins destaca ainda o Programa de Desenvolvimento Rural Integrado de Trás-os-Montes (PDRITM) como tendo sido “o primeiro grande projeto que aproximou a academia do meio agrário”. “Permitiu um melhor conhecimento e caracterização da região, através da cartografia de solos, na área da vinha, forragens e cereais. Saltámos os muros da Universidade e fomos conhecer a região”, salienta.
 
Foi com os alunos da disciplina de solos que Afonso Martins passou os momentos mais divertidos da sua carreira académica. “Tinha uma relação muito próxima com os meus alunos e mesmo de alguma cumplicidade. Um deles, que ainda hoje é meu amigo, ia comigo à caça. Por aí se pode ver o tipo de relação que havia entre todos.” As inúmeras visitas de estudo que faziam estreitavam os laços, nomeadamente pela madrugada fora: “em muitas delas, optávamos por ficar a conviver e a beber uns copos até horas avançadas”.
 
Por vezes, em contexto de sala de aula, também ocorriam situações mais inusitadas que terminavam em sonoras gargalhadas. “Um assistente meu, o João Galhano, levou um tronco velho com um formigueiro para explicar a decomposição da matéria orgânica. A dada altura, as formigas já estavam a subir pelas pernas das alunas e elas começaram aos gritos.”
 
A camaradagem entre colegas era sedimentada com momentos de cooperação e de diversão, nomeadamente com os famosos assaltos de carnaval. “Os professores mascaravam-se e festejávamos em conjunto. Íamos a casa de outros docentes e aquilo acabava, invariavelmente, com presunto e vinho na mesa.”
 
Ao fim de quase quatro décadas, o investigador olha para a UTAD como uma “âncora de fixação de pessoas na cidade e na região” e como um grande reservatório de saber. “É uma escola de elite em vários setores como o vitivinícola, o agrário, o florestal e o ambiental, assim como as engenharias”, destaca. 
 
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)