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À boleia das memórias de Alfredo Rodrigues



Perdeu a conta aos quilómetros, mas ziguezagueia facilmente pelos trilhos do tempo em que foi motorista na academia transmontana. Alfredo Rodrigues partilha as coordenadas de 23 anos de estrada.
“Eu quero é um carro para as minhas mãos. Sou motorista, não sou mais nada.” Foi este o veredicto de Alfredo Rodrigues, proferido em meados de 1979, quando o presidente do IPVR, António Réfega, lhe sugeriu outras funções. A paixão pela condução é algo que, aos 78 anos, continua intocável e inexplicável. “Sempre adorei... Comecei a conduzir na tropa. Os oficiais davam-me um carro nas marchas finais e sabiam que não tinha carta. Só a tirei aos 22 anos.”
Nascido na aldeia de Zebras (concelho de Valpaços), Alfredo acabaria por se tornar motorista profissional ao serviço do Instituto de Investigação Agronómica de Angola. Experimentou o Audi 100 GL, o veículo que mais gostou de dirigir, e cruzar-se-ia por acaso com o professor Réfega, no fim de semana em que este embarcou para Portugal. “Fui eu que o transportei de Nova Lisboa a Luanda para apanhar o avião. Foram 1200 km no mesmo dia.”
Quando chegou a vez de Alfredo fazer as malas e tomar o mesmo rumo, perseguia-o a incerteza de um futuro. Por indicação de um amigo, viajou até Vila Real, onde tudo lhe era desconhecido, e o IPVR tornou-se o seu ponto de chegada. “Nunca trabalhei noutro sítio depois de vir para Vila Real, porque estava satisfeito”, frisa.
Habituado a uma frota de 130 viaturas na ex-colónia, Alfredo passou a ter três à sua disposição: “um Volkswagen e um Land Rover da PIDE, também havia um Land Rover azul”. “Depois comprámos um Ford Cortina para a direção e ainda andei com ele muito tempo”, relata. Chegaram, também, duas carrinhas Ford Transit novas, mas o rigor do inverno fazia com que, pela manhã, só pegassem de empurrão. “Conheci todas as viaturas que houve. Isto aqui chegou a ser um mundo de carros, ainda que a maior parte fosse alugada.”
Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e Bragança eram os destinos que mais se repetiam. “Às vezes, demorava-se hora e meia para subir o Luso e o Marão era horrível com o gelo, mas o serviço tinha que se fazer. Só éramos dois motoristas.” Como não havia GPS e “era muito raro” usar mapas, “quantas vezes” teve de descer o vidro, pedir informações e inverter o sentido da marcha. “Normalmente, quem ia comigo conhecia um bocado e ajudava, mas quando havia engano, ninguém reagia.”
Evocar essas viagens longínquas é “uma maravilha”. Alfredo recorda, orgulhoso, que chegou a percorrer “o Marão velho” cinco vezes em 24 horas. “Saí de casa às três da manhã para ir a Braga. Cheguei a Vila Real, peguei numa carrinha e fui ao Porto carregar materiais para os laboratórios. Quando regressei, encostei-a para descarga e peguei noutro carro para levar a professora a Braga.”
Alfredo não nega que apanhou alguns sustos de fazer “correr água testa abaixo”, mas só teve um acidente já na reta final. “Não foi culpa minha e só o rapaz do outro carro ficou ferido”, lembra o antigo motorista da vice-reitoria. O telefone estava sempre em alerta e o trabalho interrompia muitas vezes o descanso: “cheguei a ser chofer de três vice-reitores e, ao fim de semana, como éramos poucos motoristas, tinha de fazer serviço para os reitores.” No seu percurso, regista-se apenas uma multa de estacionamento “ao largar três cartas nos correios”. 
De olhos fitos na estrada, Alfredo não podia deixar de escutar as conversas, os telefonemas, os desabafos dos ocupantes, mas “isso era chave fechada”. Não raras vezes tinha de transportar ministros que se deslocavam à UTAD: “vinham de avião até ao Porto e trazíamo-los até cá, por vezes, não havia avião e íamos levá-los a Lisboa ou o contrário”.
Foi ao volante de um Opel e sem gravata que Alfredo se despediu da UTAD. “Já tinha tido esse problema em Angola. Preferia não ser motorista a ter de andar engravatado. Portanto, andei sempre à-vontade, em mangas de camisa.”
Daniel Faiões e Patrícia Posse (texto e fotografia)